Há muitos anos, assisti a Muito Além do Jardim com meu compadre, hoje radicado na Espanha, o “Lameira” — assim mesmo, entre aspas, porque certas criaturas já chegam ao mundo acompanhadas de legenda. Peter Sellers fazia Chance Jardim, um jardineiro que não entendia absolutamente nada do mundo, mas era tratado por todos como um gênio. Na época, achei engraçado. Hoje, olhando a política, acho quase profético.
Chance falava de plantas e estações; os outros ouviam profundas teorias sobre a humanidade. Na esquerda, a fórmula continua funcionando: se a economia afunda, é estrutural; se o desemprego aumenta, é conjuntural; se tudo piora, a culpa é do capitalismo. E se alguém perguntar quando aquilo vai melhorar, surge sempre um intelectual para explicar que a pergunta é, no mínimo, fascista.
Chance não torcia contra o jardim; simplesmente não conhecia outro. Já seus admiradores modernos aprenderam que, quanto mais mato, mais discurso, quanto mais crise, mais palanque e quanto pior a colheita, mais fácil vender a enxada como solução. É a extraordinária arte de torcer para o incêndio e depois posar de especialista em mangueiras.
No filme, confundiram a ignorância de Chance com genialidade. Na política, há quem transforme a própria incompetência em ideologia — e ainda encontre plateia para aplaudir. Nesses casos, não adianta discutir: é melhor deixar o jardineiro, a enxada e os gafanhotos além das linhas da arrebentação; afinal, até o jardim merece algum descanso.
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