A política, convenhamos, é uma senhora de hábitos bastante curiosos: transforma adversário de ontem em aliado de amanhã e, dependendo da circunstância, até em ministro. Por isso, a escolha de Cláudio Lottenberg por Flávio Bolsonaro não desmerece o escolhido; apenas confirma que, na política, o roteiro muda mais rápido que a opinião do eleitor. E às vezes muda sem sequer avisar o elenco.
Lottenberg, presidente do Conselho do Albert Einstein, criticou publicamente Jair Bolsonaro durante a pandemia, especialmente pela postura diante das máscaras, do distanciamento social e da condução sanitária do governo. Agora, aparece indicado pelo filho para o Ministério da Saúde. É a política fazendo suas mágicas: ontem criticava o pai, hoje pode trabalhar para o filho — amanhã, quem sabe, ainda aparece alguém dizendo que tudo não passou de uma saudável divergência familiar.
O curioso é que fica difícil imaginar alguém de direita, em sã consciência, convidando Janones ou Lindbergh para um cargo público — seria quase pedir ao gato que tomasse conta do peixe. Mas política é isso: o adversário de hoje pode ser o aliado de amanhã, e o aliado de amanhã talvez tenha sido o crítico de ontem. Resta saber, diante do que se soube no Congresso americano sobre Anthony Fauci, se Lottenberg vai pedir desculpas ao pai do presidenciável — ou se adotará o velho método político: não pedir desculpas, não explicar e esperar a próxima eleição.
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