Em São Paulo, pancadão tem polícia, fiscalização e, aparentemente, até limite para a paciência do cidadão.
Em Seropédica, especialmente no Km 40, parece vigorar uma curiosa doutrina: quanto mais alto o som, menor a presença do Estado.
Aos sábados, na região da Rua Rita Batista, o Pancadão Sem Noção transforma o sossego público em peça de museu, numa verdadeira operação de trezentos tímpanos perfurados por segundo.
E o cidadão, dentro da própria casa, que trate de arrumar um bom protetor auricular — porque reclamar parece não adiantar muito.
O mais curioso é que o 24º Batalhão da Polícia Militar, em Queimados, responsável pelo policiamento de toda a região, tem sob sua responsabilidade a ordem pública por essas bandas.
Mas, diante de trezentos tímpanos perfurados por segundo, a briosa PM parece desenvolver uma impressionante surdez institucional.
Em São Paulo, a perturbação do sossego é caso de polícia; em Seropédica, aparentemente, é apenas uma manifestação cultural com caixas de som.
E assim a autoridade não precisa mandar o cidadão calar a boca: basta deixar o pancadão falar por ela.
No fim das contas, fica a pergunta incômoda: quem protege o direito de quem quer simplesmente dormir, descansar ou conversar em sua própria casa?
Porque autoridade que aparece para cobrar do cidadão, mas desaparece quando precisa impor a ordem, acaba virando uma espécie de decoração pública.
Enquanto isso, o Pancadão Sem Noção segue firme, forte e ensurdecedor, prestando seu serviço comunitário de tortura acústica.
Em Seropédica, pelo visto, o silêncio não é um direito — é um privilégio de quem mora longe das caixas de som.
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