sábado, 1 de agosto de 2026

A SÍNDROME DO BODE EXPIATÓRIO

Carlos Gilberto Triel

Moro no Brasil, pago boleto em real e ainda aturo alguns canhoteiros no exterior dando pitaco sobre a minha rotina. 

O cidadão cruza a fronteira, mas mantém o cordão umbilical preso aqui só para palestrar virtudes que a própria família despreza. É fascinante ver quem vive longe tentar aplicar uma régua moral que ninguém aguenta. O sujeito se acha um farol de sabedoria, mas enguiçou no patamar da mediocridade e não se deu conta.

​Nessa altura da vida, fui obrigado a ouvir um outro ex-amigo contar que o centro espírita dele deixou de respeitar Divaldo Franco só porque ele disse ter votado no Bolsonaro. Do dia para a noite, o homem virou a excrescência da doutrina para meia dúzia de vigaristas que se acham iluminados. Se a carreira não decolou ou o pneu furou lá fora, a culpa nunca é da própria mediocridade, mas do Trump ou do Bolsonaro. É a comodidade de culpar a política para não olhar no espelho.

​Entrar numa discussão dessas é o atalho mais rápido para perder a paz de espírito que já temos pouca. Como alertou um influenciador, tentar argumentar com quem está hipnotizado por narrativa ideológica é um erro crasso. Não adianta mostrar o caminho da razão; a reação dessa gente nunca é o debate, mas um salto direto na sua jugular. A ingenuidade de tentar converter esses doutores da virtude só custa dor de cabeça e sermão grátis.

​Entre a minguada do nosso salário e a fartura dos boletos, o melhor remédio é o sagrado silêncio. Deixe que o palestrante da diáspora continue pregando para o vento e cancelando ícones por picuinha eleitoral. A nossa saúde mental agradece quando aprendemos a não alimentar o ego de quem trocou de país, mas não evoluiu nada. Que Deus me perdoe e guarde, mas para aguentar esse coitadismo em dólar ou euro, só rindo alto.

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