domingo, 2 de agosto de 2026

A CRISE, O CRIME E A CARA DE PAU S/A

Antes de entrar no assunto, uma rápida viagem a 2020.

Lembram-se?

Ficar em casa era a oitava maravilha do mundo.

Quem discordasse do confinamento indiscriminado era tratado como herege, terraplanista, negacionista e candidato à fogueira da Inquisição.

Celebridades trancadas em mansões de mil metros quadrados gravavam vídeos ensinando o pedreiro, o camelô, o garçom e o pequeno comerciante a "ficarem em casa".

Era de uma sensibilidade com o bolso alheio que chegava a emocionar.

Boa parte da imprensa embarcou de corpo e alma.

Alguns apresentadores de televisão assumiram o papel de sacerdotes da nova religião sanitária.

Questionar deixou de ser ciência.

Passou a ser pecado.

E João Doria, sempre com uma câmera por perto, vestiu a fantasia de marechal da pandemia, distribuindo certezas com a convicção de quem acreditava que a História já havia reservado um pedestal em sua homenagem.

O tempo, esse sujeito teimoso que nunca assina manifesto nem participa de coletiva de imprensa, resolveu fazer o que sabe de melhor: passar.

Vieram os números.

Vieram as revisões.

Vieram os documentos.

Vieram os depoimentos.

Vieram as dúvidas que antes eram proibidas.

E, curiosamente, muitos dos que apontavam o dedo resolveram guardar a mão no bolso.

Não houve autocrítica.

Não houve pedido de desculpas.

Não houve sequer um constrangimento visível.

Mudou-se apenas o assunto.

Afinal, memória curta sempre foi um excelente desinfetante para reputações.

E isso nos leva a uma velha frase atribuída a Delfim Netto:

"A falência purifica."

Purifica mesmo.

Tem gente que quebra uma empresa e reaparece como consultor.

Tem gente que quebra a própria credibilidade e reaparece como especialista.

E tem quem erre em horário nobre para, meses depois, voltar ao horário nobre explicando por que, na verdade, nunca errou.

É um talento extraordinário.

Mas quem continua imbatível é Dom Rossé Cavaca:

"Há milhares de notas falsas em circulação, mas tão prestativas que conquistaram a confiança de todos."

Talvez hoje ele escrevesse:

"Há milhares de verdades em circulação, mas tão inconvenientes que quase ninguém quer recebê-las."

Nenhum comentário:

Postar um comentário