Gosto de uma história engraçada contada por Michael Caine sobre um encontro com John Wayne, quando apareceu o famoso “Ser ou não ser, eis a questão”, de Shakespeare. Wayne leu, releu, matutou alguns segundos e, com a delicadeza de um rinoceronte numa loja de cristais, soltou: “Quem escreveu essa bosta?”. A plateia, naturalmente, veio abaixo — e a literatura teatral jamais chegou perto de John Wayne.
Mas é justamente aí que mora a graça: Hoje em dia, a patrulha do politicamente correto ama resgatar os deslizes do velho Wayne, como se ele tivesse recebido a missão de ser o Dalai Lama do politicamente correto.
Esquecem que cada homem é filho do seu tempo, limitado pelas circunstâncias, pelos costumes e até pelas próprias contradições. Exigir de um sujeito de outra época a cartilha moral do presente é fácil; difícil é admitir que nós também seremos julgados amanhã pelas nossas certezas de hoje.
No fundo, essa turma parece viajar num transatlântico de primeira classe, contemplando a humanidade lá embaixo, enquanto imagina ter comprado passagem para um camarote reservado da evolução.
O caboclo tem uns míseros deltinhas de avanço e já se sente espécie superior, distribuindo certificados de virtude pela janela. John Wayne podia não entender Shakespeare — mas, convenhamos, talvez entendesse muito bem essa velha mania humana de confundir evolução com arrogância.
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