Tem sujeito que ganha salário de rei sem nunca ter visto uma enxada de perto, não enfrenta seca, chuva, praga, cliente reclamando nem muda morrendo no transporte. Vive no ar-condicionado, protegido por uma montanha de carimbos e penduricalhos, e ainda encontra tempo para explicar como o produtor rural deveria trabalhar. É o milagre brasileiro: quem não corre risco de errar é justamente quem mais gosta de dar palpite sobre o caminho dos outros.
Do outro lado, temos a fauna artística e intelectual, aquela turma que pega um violão, escreve três versos sobre a lua, toma uma cerveja importada e, de repente, acorda especialista em economia, agricultura, geopolítica e salvação da humanidade. Muitos vivem de cachê, incentivo, verba pública ou aplauso de plateia cativa, mas olham para o homem do campo como se ele fosse um personagem medieval. A soja, para essa gente, provavelmente nasce de madrugada, já ensacada e com código de barras.
E assim vamos nós: Brasília engordando a folha de pagamento, enquanto São Paulo produz, trabalha e paga a conta — uma espécie de vaquinha nacional em que a vaca mora no campo e os outros ficam com o leite. O mais engraçado é ver o cidadão que jamais teve dor de cabeça com folha de pagamento, funcionário faltando ou mercadoria encalhada explicando como o Brasil deve funcionar. Se opinião produzisse riqueza, esses gênios já teriam transformado o país numa potência; pena que, até agora, só conseguiram produzir discurso, cerveja importada e muito pé no saco.
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