terça-feira, 31 de março de 2026

O ÚLTIMO CAPRICHO NO AMIGO

Carlos Gilberto Triel

Passados quase dois anos da partida do "Patrão", a memória me pregou uma peça nostálgica ao resgatar a figura de José Jacenildo dos Santos. O Brasil inteiro conheceu o Jassa não apenas como o mestre das tesouras, mas como o fiel confidente que, por quatro décadas, moldou a imagem mais icônica da nossa televisão. Era um ritual sagrado: Silvio sentado na cadeira, a irreverência no ar e o anúncio de que o visual ganharia aquele "capricho" especial diante das câmeras.

​O que vimos na tela, entretanto, era apenas a ponta de um iceberg feito de uma lealdade raríssima no mundo das vaidades. Silvio Santos não apenas confiava seu rosto ao amigo paraibano, mas fazia questão de abrir as portas da fama para aquele que cuidava de sua autoestima. Foram décadas de uma promoção generosa, onde o apresentador trazia o barbeiro para o centro do palco, transformando uma relação profissional em um laço de irmandade que o tempo se encarregou de eternizar.

​Fico aqui a imaginar o peso do silêncio e a emoção que inundou o peito de Jassa ao ser convocado pela família Abravanel para o último encontro. Deve ter sido o serviço mais difícil de sua vida: preparar o corpo do velho amigo para o descanso eterno, enfrentando aquele nó na garganta que nos assombra. Ali, diante da imobilidade de quem tanto gesticulou, as mãos do artista certamente tremeram ao retribuir, em silêncio, tantos anos de absoluta confiança.

​Naquele instante de despedida, o que terá passado pela cabeça do homem que ouviu tantas confidências sobre política, futebol e as amenidades da vida? Entre um corte e outro, eles desfiaram o cotidiano e compartilharam as dores e alegrias de verem os filhos crescerem, em um confessionário de poltrona de couro. O Jassa, naquele momento final, era a síntese da gratidão, o guardião de segredos que agora repousam em um lugar onde as luzes do estúdio jamais conseguem alcançar.

​A consciência desse adeus traz consigo o reconhecimento profundo de uma trajetória que mudou o destino de um imigrante. Sem a mão estendida de Silvio, o Jassa poderia ter sido apenas mais um sonhador vindo do Nordeste para tentar a sorte na selva de pedra paulistana. Mas, graças ao amigo, ele se tornou referência e prova viva de que a elegância de um homem não está apenas no corte de cabelo, mas na capacidade de ser grato a quem o ajudou a brilhar.

domingo, 29 de março de 2026

Garotinho "Bukele" versus Paes "Velhinho": O Duelo das Raposas

 Carlos Gilberto Triel

O tabuleiro político fluminense em 2026 tá mais enrolado que fone de ouvido no bolso, com Eduardo Paes posando de favorito com o selo do Planalto no peito. O nosso "Dudu das Antigas" acha que estar colado com o Lula é passaporte para o céu, mas esquece que no Rio o favoritismo costuma caducar antes do leite. Enquanto isso, o inoxidável Anthony Garotinho, que tem mais fôlego que maratonista queniano, aposta tudo no contra-ataque certeiro. Ele sabe que, por aqui, um contraste bem desenhado vale mais que mil pesquisas de intenção de voto compradas.

​Garotinho, o mestre da "lábia de feira", tá tentando um drible de mestre ao piscar o olho para a turma do Bolsonaro, tentando herdar aquele espólio de votos órfãos. Ele anda por aí se vendendo como uma espécie de Nayib Bukele das terras fluminenses: o cabra destemido, conhecedor profundo dos subterrâneos do crime, jurando de pé junto que tem a fórmula mágica para acabar com o crime organizado num estalar de dedos. Não é amor de Carnaval, é puro cálculo de sobrevivência política: quem tem urticária de Lula vai acabar abraçando o Garotinho só de pirraça, na esperança de um "mão de ferro" à la El Salvador.

​Já o Paes carrega um combo ingrato: ganha as chaves do cofre federal, mas leva junto todas as pedradas que a oposição atira na vidraça da Praça dos Três Poderes. Se o governo lá em cima der um espirro, o prefeito daqui é quem corre para tomar a Benegrip política sob o sol escaldante da orla. Com essa polarização mais azeda que limão galego, o eleitor não quer saber de papo furado e transforma a eleição estadual num terceiro turno da briga de Brasília. O Dudu vira o alvo da vez, carregando o bônus e o ônus de ser o "queridinho" da capital.

​É justamente nesse "salve-se quem puder" que aquela virada de última hora, típica de quem conhece os becos do estado, pode dar as caras e bagunçar o coreto dos analistas. Se o Garotinho conseguir se vender como o único herói capaz de barrar a "invasão lulista", ele vai crescer feito massa de pão com fermento vencido. A história do nosso Rio mostra que o eleitorado adora um movimento brusco aos 45 do segundo tempo, especialmente se tiver aquele apelo emocional de novela das oito e cheiro de povo. É o famoso "quem não chora, não mama".

​No fim da feira, mesmo que a foto de hoje mostre o Paes sorrindo na frente, o filme da eleição fluminense ainda tem muito suspense e pouca pipoca garantida. Se a briga nacionalizar de vez e o Garotinho souber usar a malandragem que Deus lhe deu, o jogo vai ficar mais apertado que terno de padrinho de casamento. No Rio de Janeiro, meu camarada, a eleição é como final de campeonato no Maracanã: só acaba quando o juiz apita e a torcida invade o campo. Até lá, é melhor garantir o estoque de calmante e observar a dança das cadeiras.


sexta-feira, 20 de março de 2026

O FEIOSO

Carlos Gilberto Triel

Zeca Sebozinho resolveu dar um trato na Fiorino, mangueira, água, sabão e com o pagode no toca fitas rodstar nas alturas:

- Na moral, amanhã, antes do meio dia, se não chover, trago pra casa o bacalhau da semana Santa.

O garotinho do outro lado da calçada que ia pra escola virou pra mãe e disse:

- Olha lá mãe, como aquele cara é feio!

Stela Friquique  deu-lhe um cascudo arrumado e tentou falar baixinho:

- Não fala isso, peste. A gente pode ser preso. 

Zeca Sebozinho ficou brabo que nem siri na lata:

- Eu ouvi! Eu Ouvi! Amanhã mesmo vou ao diretório do PT pra denunciar vocês ao Supremo.

 Stela Friquique sentiu que era preciso usar seu charme:

- Ô gatão, liga não, ciúmes desse moleque. Ficou com raiva porque que achei você a cara do Brad Pitt.

Sebozinho foi atingido em cheio, de tão bobo quase escorregou na espuma.

Mas, o garotinho jogou a pá de cal:

- Mãe, como você é mentirosa! Esse sujeito é tão feio que assusta até defunto.

Zeca Sebozinho começou a dar pulinhos e gritar ao mesmo tempo:

- Isso é preconceito!  Vou pedir pra Élida Rildo denunciar esse pivete na Corte Internacional.

Alfredinho Tamanduá, da banca de bicho botou mais lenha na fogueira:

- Ô da mangueira mole, não me leve a mal, mas a pessoa do garoto tem razão, com todo respeito, mas você é muito feio!

Irmã Isaurinha Chupeta, incendiou geral:

- Também acho, se o senhor aparecer no dia do culto da Fogueira Insana lá da minha igreja, o pastor vai dizer que o Capeta apareceu aí vivo e a cores.

Zeca Sebozinho era um só desespero:

- Mas onde nós estamos!!?  Feio é o passado das suas mamãezinhas, por que vocês não vão pra pata que pariu um patinho!

Seu Walfrido do Sacolão que ia passando tentou aliviar: 

- Não falem assim, graças ao Sebozinho aqui na rua nunca ninguém foi assaltado, bandido tem o maior medo de pegar sua feiúra.

O garotinho voltou a atacar:

- O Senhor devia tá no Zoológico, lá ia fazer o maior sucesso.

Alfredinho Tamanduá tirando onda de ambientalista:

- Trabalhei com Jaques Castor num documentário, sei o que falo, seu Sebozinho de tão feio jamais seria adaptável ao meio ambiente de um Parque de Animais.

Foi aí nesse ponto que Zeca Sebozinho perdeu o controle e partiu pra porrada, o garotinho foi o primeiro a correr, a mãe e os outros não tiveram a mesma sorte, todos foram pra delegacia e, Sebozinho comentou com o delegado:

Doutor Delegado, obrigado por me liberar, o Senhor é um homem justo.

O delegado foi direto ao ponto:

Justo é o meu cacete, por mim você estaria em cana, não lhe prendo porque as facções aqui dentro iam criar o maior tumulto com essa sua feiúra. 

Nota: Todos os personagens e fatos retratados são fictícios qualquer semelhança é coincidência.

quarta-feira, 11 de março de 2026

“O DIA QUE SUBI À RÁDIO NACIONAL"

Carlos Gilberto Triel

Na distante adolescência dos anos 60 e 70, ser artista parecia o atalho mais curto para chegar às mocinhas papo firme que o Roberto Carlos cantava nas vitrolas da época. O romantismo vinha embalado em compacto simples, e a gente acreditava que um microfone na mão resolvia metade da vida. Confesso que levei essa ideia muito a sério. Talvez sério demais para um garoto de onze anos. Mas quem disse que sonhos juvenis conhecem moderação?

Foi assim com esse 11 anos de vida que um dia me vi subindo, degrau por degrau, até o vigésimo segundo andar do lendário Edifício A Noite, na Praça Mauá, só para conhecer a Rádio Nacional. Para mim, aquilo era quase uma peregrinação artística. O destino tinha nome e sobrenome: o rádio-ator Milton Rangel, o inesquecível Jerônimo, o Herói do Sertão. Aquele encontro, ainda que breve, tinha o peso de um batismo. Eu saí dali convencido de que estava no caminho certo.

Dos onze aos dezoito anos, a vida tratou de ajeitar as coisas, inclusive a tal “voz importada”, que finalmente resolveu aparecer. A locução radiofônica me deu traquejo, ritmo e um certo charme comunicativo. Serviu para muitos caminhos profissionais depois. Mas sejamos honestos: naquele tempo o objetivo estratégico era outro. Todo aquele esforço tinha endereço certo — e usava saia rodada ou mini-saia.

Quando a voz já estava devidamente modulada, inspirada nos timbres elegantes de locutores como Roberto Faisal e Odair Marzano, faltava apenas um detalhe importante: a aparência de galã de cinema. Eu mirava alto, muito alto. Pensava nos heróis de tela larga como Charlton Heston, Burt Lancaster e Robert Redford; e, por aqui, nos galãs nacionais Reginaldo Faria, Carlo Mossy e John Herbert. Ali percebi que o meu andar no prédio da fama talvez ficasse alguns andares abaixo.

Ainda assim, olhando hoje pelo retrovisor generoso da memória, não há do que reclamar. Entre tropeços, ilusões e algumas boas gargalhadas, a vida foi incrivelmente tolerante comigo. Deus, em sua paciência magnânima, resolveu me manter por aqui atravessando séculos.

E cá estou: um sobrevivente daqueles tempos românticos, talvez não exatamente um galã, mas vivo, bem-humorado e profundamente grato pela aventura. 

segunda-feira, 9 de março de 2026

O CANDIDATO CARA DE PAU

Carlos Gilberto Triel

Horácio Pantera, candidato a deputado federal chegou no Bairro do Mosquito Manco e deitou falação:

- Caso seja eleito com os votos de vocês prometo construir um parque aquático as margens do Rio Guandu e transformar toda essa decadente região num verdadeiro Balneário. 

Glorinha Pureza, ex bailarina de programas de auditório dos anos 70 mandou um papo reto:

- Deixa de caô, Mané. Faz um Pix aí de quinhetinhos que lhe garanto 100 votos.

Horácio Pantera quis saber detalhes:

- Ô formosa dama, e de quem seria esses meus futuros eleitores?

Glorinha, respondeu na lata:

- Qualé, malandro, pega visão! Dos meus namorados aposentados! Todos têm filhos e netos pra dá com pau. Essa velharada come aqui na minha mão e, nas outras partes do meu pão com salame.

Professor Pardal, o 71 da comunidade não perdeu a oportunidade:

- Se o doutor candidato chegar junto com milzinho para nossa Associação, garanto no minimo 200 votos.

Horácio Pantera sentiu que veio ao lugar certo, pelas suas contas a possibilidade de ser eleito era mamão com açúcar:

- Dinheiro não é problema, exijo fidelidade e transparência. Mas, afinal, essa Associação é a de Moradores? 

Professor Pardal pigarreou e mandou essa:

- Somos muito mais numerosos, sou da Associação dos Petistas Desiludidos e estamos a procura de alguém que nos faça esquecer do Lindão, o deputado que nos decepcionou.

Irmão Samuca Dorme Sujo, presbítero juramentado, sentiu que dava pra embarcar na canoa e falou baixinho ao ouvido do candidato:

- Se a excelência botar um PixZinho também aí de uns mil reais faço meus irmãos da Igreja do Jeová das Últimas Semanas votar em peso na sua pessoa

Horácio Pantera não cabia em si, já se via de terno e gravata, no plenário da Câmara à pedir um aparte ao Hugo Motta:

- Caros senhores e distinta senhora, negócio fechado, contudo, no momento atual, não disponho de fluxo de caixa, aliais, vou precisar até que vocês, meus futuros cabos eleitorais me emprestem um qualquer para o Uber, mas prometo, que um dia após a contagem dos votos  comparecer aqui e efetivar o pagamento.

Acabou de falar e a porrada comeu solta,

foi levado ao UPA devidamente  arrebentado.

Ainda na Emergência delirava para o médico e enfermeiros que seria ele o autor do próximo pedido de impeachment do presidente.


sexta-feira, 6 de março de 2026

O ANÃO GIGANTE

Carlos Gilberto Triel

O pastor Gordo Fino da Silva entrou gritando no gabinete do Missionário Abdias Malachata :

- Missionário! Tem um corno querendo me estuprar.

Missionário Abdias Malachata levou o maior  susto, e quase caiu da cadeira:

- Meu Santo Bispo Diocesano! Gordo, vai assustar sua mãe, e que negócio é esse de você invadir meu gabinete?

Pastor Gordo Fino, cuspindo e falando ao mesmo tempo:

- Foi mal, reverendíssimo, me desculpe, mas minha honra corre perigo, tem um meliante querendo me estuprar, quebra essa!

Missionário, precavido, pôs até mão pra trás, protegendo a retarguarda:

-Valha Misefio! Onde tá esse cara?

Pastor Gordo Fino, um exagerado:

- Deve tá aí na sala de espera, deve ter uns 3 metros de altura e tá armado com um fuzil AR15, 10 metralhadoras, umas 100 granadas e 1 canivete.

Missionário Abdias Malachata tentando manter a calma, falou pro obreiro:

- Paquetá, vê se o cara tá aí fora...

O obreiro Joca Paquetá, tirou logo o seu da reta:

 - É ruim, manda o porteiro Labunzamel, ele tá malhando. Academia é pra essas coisas.

Porteiro Labunzamel passou a bola rapidinho: 

- Sou muito novo pra morrer, manda Seu Astrogildo que tá com prazo de validade vencido e até falando com Jeová 

Missionário Malachata espiando pela fresta da porta do seu gabinete:

- Estou vendo os chatos de sempre, diferente só um anãozinho com um pacotinho de jujuba na mão, e coçando o saco.

Gordo, gritando num só desespero: 

- É ele! É ele! O desgraçado encolheu só pra disfarçar. Missionário, manda vir os seguranças do templo de Sansão. Não! Manda vir o batalhão inteiro, esse cara é sinistro.

Malachata perdendo a paciência:

- Deixa de frescura, Gordo. O sujeito é apenas um anãozinho, onde se viu ter medo dum homem daquele tamanho.

Gordo Fino, olhos esbugalhados:

- Porque você não viu os documentos da fera.

Malachata sem entender nada:

- Mas do quê você está falando, Gordo?

Gordo Fino contando os detalhes:

- Quando passei por ele, o marginal abriu a braguilha e me ameaçou: “olha o que você vai encarar seu Gordo do Inferno”.

Joca Paquetá, ponderou:

- E o que tem isso demais?

Gordo Fino, casa vez mais exacerado:

- O QUÊ TEM ISSO DEMAIS?!! Você não viu o tamanho da Anaconda do sujeito, tinha uns 3 metros de cumprimento por meio metro de diâmetro.

- O porteiro Labunzamel, se encolheu frustrado

- Caramba! E eu com tão pouco

Missionário Malachata, pragmático: 

- Elementar, meu caro Gordo, o que ele pode fazer com você, se você não quiser?

Gordo Fino explicando:

- Foi o que pensei no primeiro momento, depois os olhos do tarado foi ficando vermelho, e um sorrisinho safado cheio de bobices e saliências...

Missionário Abdias Malachata, objetivo:- 

E daí?

Pastor Gordo Fino, freneticamente tenso:

- Daí que o monstro partiu em minha direção e, se não fosse esse meu corpinho de velocista não conseguiria chegar aqui, um horror!

Seu Astrogildo, tranquilo que nem um monge budista:

- Besteira, Gordo, vai lá fora e faz um carinho no anão.

Gordo Fino, muito assustado:

- Daqui não saio enquanto o Exército e o FBI não matarem esse facínora degenerado.

O missionária Malachata se irritou:

- Gordo, não tenho tempo para boiolagem, se vira, saia logo daqui porque estou aguardando o Bispo Diocesano.

Gordo Fino, decidido:

- Daqui não saio. Se me expulsar retiro saio da Igreja e me transfiro pra congregação dos pastores excursionistas

Missionário Malachata, um passado de atabaques:

- Tem horas que minha vontade é largar tudo isso e voltar pro terreiro.

Gordo Fino se jogando noa pés do Misionario:

- Malachata, tenho um nome pra zelar. Sou o Gordo Fino, um estupro nessa altura da vida, meu prestígio vai pro beleléu.

Joca Paquetá que havia saído voltou com o anãozinho no colo:

- Gordo, foi tudo truque de ilusionismo, o nome dele é Mandrake Junior, é um mágico do Circo de Soleil. O cara é seu fã, e quis fazer uma brincadeirinha com você...

Gordo Fino desabafou:

- Vai brincar com a PQP!!