Anos atrás, numa encenação da Paixão de Cristo, o ator que fazia Jesus pediu ao sujeito vestido de soldado romano que maneirasse nas chicotadas. "Companheiro, pega leve, isso aqui é teatro..." O cidadão, possuído pelo espírito de Hollywood, respondeu que era um profissional e que, para viver o personagem, tinha que bater de verdade. Jesus, quer dizer, o ator que fazia o papel Jesus, não pensou duas vezes, largou a cruz e meteu a porrada no romano. Pela primeira vez, o Calvário terminou em nocaute técnico.
A plateia foi ao delírio:
-Jesus! Jesus!
Se acontecesse hoje, teria milhões de visualizações antes mesmo de Cristo ressuscitar. Metade da internet chamaria Jesus de agressor; a outra metade pediria canonização imediata por legítima defesa. Os influenciadores fariam análise corporal da briga, e algum "especialista" juraria que tudo estava previsto num evangelho apócrifo encontrado no HD de um arqueólogo.
O engraçado é que a história continua atual. O fanatismo apenas trocou de fantasia. Antes vinha de túnica, hoje chega de celular na mão NN e polegar nervoso. Não importa se é religião, política ou celebridade: basta discordar que aparece um batalhão de iluminados querendo crucificar alguém antes do almoço.
Os gafanhotos bíblicos devastavam lavouras. Os de agora devoram neurônios. Formam enxames nas redes sociais, sobrevivem de indignação em promoção e transformam qualquer debate numa rinha de galinhas. Depois reclamam que o país não vai para frente. Também pudera... com tanta gente pastando ódio, até o bom senso entrou em extinção.
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