domingo, 26 de abril de 2026

FÉ E QUÂNTICA, OS SANTOS FORA DO SEU TEMPO

Carlos Gilberto Triel

Sabe aquela sensação de que o tempo é uma linha reta? Pois é, com Padre Pio e Santo Antônio essa lógica vai para o ralo. A bilocação mostra que eles podiam estar aqui e lá ao mesmo tempo, provando que o espaço e o tempo são muito mais flexíveis do que a gente imagina na correria do dia a dia.

Quando a prece diz que Pio participou da Paixão, é como se ele tivesse pego um atalho espiritual para o passado. Ele não estava apenas lembrando de algo que aconteceu; ele estava lá, sentindo tudo na pele, conectando o século vinte diretamente ao Calvário através de uma fenda que só o mistério explica.

No fim das contas, esses santos parecem viajantes que não precisam de máquinas, apenas de uma fé gigante para dobrar a realidade. Seja Antônio pregando em duas cidades de uma vez ou Pio vivendo as dores de Cristo, ambos mostram que o amor é a única força capaz de vencer as barreiras do relógio


sexta-feira, 24 de abril de 2026

MUITO ALÉM DO JARDIM

Carlos Gilberto Triel

O curioso do filme Muito Além do Jardim é que o jardineiro não engana ninguém — ele apenas é tomado por aquilo que os outros desejam ver. Sua fala simples, quase literal, ganha ares de profundidade num ambiente que já não distingue sabedoria de projeção. O mundo ao redor, sedento por sentido, transforma banalidade em filosofia. E assim, Chance cresce não por mérito, mas pela carência alheia de referências reais.

Revendo hoje, o filme parece menos uma fábula e mais um espelho desconfortável. A ingenuidade do jardineiro encontra eco em uma sociedade que prefere narrativas fáceis à complexidade dos fatos. No terreno da política, isso se traduz numa dinâmica em que símbolos e discursos simplificados ocupam o lugar de propostas concretas. O conteúdo cede espaço à performance — e quem melhor encarna um papel convincente, leva.

Nesse cenário, o vitimismo se torna uma ferramenta poderosa. Ao se colocar constantemente na posição de injustiçado, cria-se um escudo contra críticas e uma ponte direta com emoções primárias do eleitor. A lógica é simples: se há um opressor, qualquer questionamento passa a ser visto como perseguição. O debate empobrece, e a análise cede lugar à adesão emocional. Não se discute mais o que é dito, mas quem supostamente sofre.

O paralelo com o jardineiro é inevitável. Assim como Chance, certas figuras públicas prosperam não pela densidade de suas ideias, mas pela forma como são interpretadas por um público predisposto. A diferença é que, no filme, há um tom de ironia quase inocente; na política real, as consequências são concretas e duradouras. A ingenuidade, quando instrumentalizada, deixa de ser apenas um traço humano — torna-se estratégia.

Talvez a lição mais incômoda seja esta: o problema não está apenas em quem fala, mas em quem escuta. Enquanto houver disposição para transformar simplicidade em genialidade e vitimismo em virtude incontestável, o jardim continuará sendo cultivado — não pela verdade, mas pela conveniência.

domingo, 19 de abril de 2026

OS TRAIDORES DE SI MESMO

Carlos Gilberto Triel

Há um curioso desfile nas redes: intelectuais e influenciadores criticam Trump e a direita com o olhar de crianças deslumbradas diante de vitrines de brinquedos. No passado, esses mesmos atores jamais defenderiam pautas contra judeus, o aborto, a censura ou a judicialização do torto, mas hoje tropeçam na coerência básica. Falam alto, ignorando o simples como quem esquece a seta no trânsito; o óbvio virou um incômodo e a lógica tornou-se meramente opcional nesta fase da vida.

​A metáfora é direta: certas regras não são ideológicas, são civilizatórias, mas muitos preferem atalhos retóricos para sustentar o que antes seria considerado indefensável. É irônico ver defensores da liberdade flertarem com o cerceamento de falas e com o uso do Judiciário para moldar o que é certo ou errado por pura conveniência. Muitos que se apresentam como educadores conhecem a farsa que propagam, mas seguem adiante pelo aplauso fácil, enterrando princípios que outrora pareciam ser inegociáveis.

​No fim, multiplicam-se dedos acusatórios contra quem respeita o “sinal verde” da razão, enquanto o senso comum é trocado por narrativas moldáveis e perigosas. A defesa de pautas que ferem a tradição e a ética demonstra que a autoridade intelectual se esvai quando se ignora o básico da própria história. Talvez seja hora de reaprender os fundamentos, pois sem o lastro da verdade e da justiça, nem o discurso se sustenta, nem a integridade moral consegue se manter.


quarta-feira, 15 de abril de 2026

UM PREFEITO DE SORTE

Carlos Gilberto Triel

O prefeito de Nova Laranja, Duda Reinaldo chegou no gabinete cuspindo maribondos, não sem antes conferir no espelhinho portátil os fios de cabelo resilientes.

- Assim não dá, Assim não dá! Essa cambada não larga do meu pé! 

A secretária Malu Tarantella preocupadíssima com o chefe:

- O que aconteceu, prefeito? 

Duda Reinaldo guardou o espelhinho, passou a mão na testa retornando com dois fiozinhos rebeldes ao patamar da cabeça, e se pôs a lamentar:

- Malu, que culpa tenho que o motorista da carreta dá uma porrada no viaduto, eu chego rapidinho pra dar força pro contribuinte e, os subvencionados metidos a jornalistas me esculhambam.

Malu Tarantella, uma exagerada:

- Liga não prefeito, assim como foi com Churchill, Kennedy, Obama e o Trump, o Sr. também passa por igual provação com a imprensa.

Duda Reinaldo nem disfarçou que gostou, pigarreou, pôs a mão fechada no queixo, franziu a testa com pose de conteúdo, e não fez por menos, viajou na maionese:

- A diferença minha cara Malu, é que esses meus colegas estadistas tiveram um longo cronograma de espera, o meu destino é chegar logo ao governo do Rio e quatro anos depois à presidência do Brasil.

Mario Sabonete, o assessor para motivação, um baba ovo arrumado:

- Grande Duda, além de predestinado, tu é um cabra de sorte, nasceu de duas letrinhas viradas pra lua, e quanto a essa oposição, os cães ladram e a caravana passa.

Malu Tarantella direta ao ponto:

- Exatamente. Quem na história de Nova Laranja teve tanta sorte, concorreu e já na primeira eleição foi alçado a presidente da Câmara e depois prefeito?

Mario Sabonete insuperável na puxação de saco:

- Isso sem falar que você foi o primeiro prefeito de Nova Laranja a mostrar intimidade com o futebol. 

Duda Reinaldo que já estava ficando alegrinho, lembrou da porrada que levou na sua partida de futebol como prefeito:

- Ih nem me fale, toda vez que lembro desse jogo minha vontade é ligar pro Xandaquistão e pedir a prisão daquele meliante que me acertou de forma criminosa.

Mario Sabonete sabe vender bem seu peixe:

- Ô meu prefeito, fica assim não, quando pintar esse clima de depressão siga o mantra do nosso deputado Julinho da Roda: Energia! Muita Energia!

Duda Reinaldo, não gostou:

- Energia do Julinho da Roda!!? Tô fora, aquilo não tem energia nem pra rapel de anão.

Pauli Pestana, o meste de cerimônias de festas juninas entrou na conversa:

- Prefeito, de acordo com sua determinação o Arraiá da Jura já reservou um camarote especial para o seu convidado de fama internacional...

Duda Reinaldo, olhinhos brilharam de alegria: 

- Perfeito, já entrei em contato com o gabinete de apoio do meu convidado, estou no aguardo da resposta.

Todos se entre olharam e juntos  perguntaram:

- Quem seria?

Duda Reinaldo, pescoço com altivez de uma marmota observando possíveis predadores na pradaria:

- Confesso que pensei no Donald Trump, mas não quero problemas com o governo federal. Então decidi convocar o meu amigo Charles.

Todos novamente se entre olharam e juntos perguntaram:

- O Rei Charles da Inglaterra? 

Duda Reinaldo, desdenhou a resposta e não se fez de rogado:

- Que Rei Charles nada, convidei foi o Charlles Rekson patrão e amigo do Tiringa.