Não me atrevo a ser o “pautador” do Jornal Nacional, mas faça-me o favor: a morte de Dolly Parton merecia mais que uma biografia de celebridade.
Merecia lembrar que, por quase seis décadas, ela viveu uma discreta história de amor com Carl Dean, longe dos holofotes e dos romances fabricados.
Uma história que, em tempos de amores descartáveis, talvez dissesse muito mais sobre Dolly do que uma simples relação de sucessos e números.
Carl Dean morreu em março de 2025, aos 82 anos; Dolly Parton morreu hoje, aos 80, depois de enfrentar complicações de saúde.
E há algo de profundamente humano nessa história: enquanto cuidava do marido, ela atravessava também os últimos capítulos de uma união que resistiu por quase 60 anos.
Mas, aparentemente, para a pauta televisiva, o amor que dura seis décadas não rende tanto quanto a celebridade que dura alguns minutos.
É aí que fica o puxão de orelhas: jornalismo também é escolher aquilo que merece ser contado, e valores humanos deveriam ocupar algum espaço nessa escolha.
Dolly não foi apenas a cantora de “Jolene” ou a estrela de tantos palcos; foi também mulher, esposa e protagonista de uma história de amor que atravessou uma vida inteira.
Quando uma pauta consegue enxergar o espetáculo, mas não enxerga a história humana por trás dele, talvez não esteja faltando informação — esteja faltando sensibilidade, e sobrando um jornalismo espetáculo e primoroso atestado de falência.
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