Antes de entrar no assunto, uma rápida viagem a 2020.
Lembram-se?
Ficar em casa era a oitava maravilha do mundo.
Quem discordasse do confinamento indiscriminado era tratado como herege, terraplanista, negacionista e candidato à fogueira da Inquisição.
Celebridades trancadas em mansões de mil metros quadrados gravavam vídeos ensinando o pedreiro, o camelô, o garçom e o pequeno comerciante a "ficarem em casa".
Era de uma sensibilidade com o bolso alheio que chegava a emocionar.
Boa parte da imprensa embarcou de corpo e alma.
Alguns apresentadores de televisão assumiram o papel de sacerdotes da nova religião sanitária.
Questionar deixou de ser ciência.
Passou a ser pecado.
E João Doria, sempre com uma câmera por perto, vestiu a fantasia de marechal da pandemia, distribuindo certezas com a convicção de quem acreditava que a História já havia reservado um pedestal em sua homenagem.
O tempo, esse sujeito teimoso que nunca assina manifesto nem participa de coletiva de imprensa, resolveu fazer o que sabe de melhor: passar.
Vieram os números.
Vieram as revisões.
Vieram os documentos.
Vieram os depoimentos.
Vieram as dúvidas que antes eram proibidas.
E, curiosamente, muitos dos que apontavam o dedo resolveram guardar a mão no bolso.
Não houve autocrítica.
Não houve pedido de desculpas.
Não houve sequer um constrangimento visível.
Mudou-se apenas o assunto.
Afinal, memória curta sempre foi um excelente desinfetante para reputações.
E isso nos leva a uma velha frase atribuída a Delfim Netto:
"A falência purifica."
Purifica mesmo.
Tem gente que quebra uma empresa e reaparece como consultor.
Tem gente que quebra a própria credibilidade e reaparece como especialista.
E tem quem erre em horário nobre para, meses depois, voltar ao horário nobre explicando por que, na verdade, nunca errou.
É um talento extraordinário.
Mas quem continua imbatível é Dom Rossé Cavaca:
"Há milhares de notas falsas em circulação, mas tão prestativas que conquistaram a confiança de todos."
Talvez hoje ele escrevesse:
"Há milhares de verdades em circulação, mas tão inconvenientes que quase ninguém quer recebê-las."