Carlos Gilberto Triel
Passados quase dois anos da partida do "Patrão", a memória me pregou uma peça nostálgica ao resgatar a figura de José Jacenildo dos Santos. O Brasil inteiro conheceu o Jassa não apenas como o mestre das tesouras, mas como o fiel confidente que, por quatro décadas, moldou a imagem mais icônica da nossa televisão. Era um ritual sagrado: Silvio sentado na cadeira, a irreverência no ar e o anúncio de que o visual ganharia aquele "capricho" especial diante das câmeras.
O que vimos na tela, entretanto, era apenas a ponta de um iceberg feito de uma lealdade raríssima no mundo das vaidades. Silvio Santos não apenas confiava seu rosto ao amigo paraibano, mas fazia questão de abrir as portas da fama para aquele que cuidava de sua autoestima. Foram décadas de uma promoção generosa, onde o apresentador trazia o barbeiro para o centro do palco, transformando uma relação profissional em um laço de irmandade que o tempo se encarregou de eternizar.
Fico aqui a imaginar o peso do silêncio e a emoção que inundou o peito de Jassa ao ser convocado pela família Abravanel para o último encontro. Deve ter sido o serviço mais difícil de sua vida: preparar o corpo do velho amigo para o descanso eterno, enfrentando aquele nó na garganta que nos assombra. Ali, diante da imobilidade de quem tanto gesticulou, as mãos do artista certamente tremeram ao retribuir, em silêncio, tantos anos de absoluta confiança.
Naquele instante de despedida, o que terá passado pela cabeça do homem que ouviu tantas confidências sobre política, futebol e as amenidades da vida? Entre um corte e outro, eles desfiaram o cotidiano e compartilharam as dores e alegrias de verem os filhos crescerem, em um confessionário de poltrona de couro. O Jassa, naquele momento final, era a síntese da gratidão, o guardião de segredos que agora repousam em um lugar onde as luzes do estúdio jamais conseguem alcançar.
A consciência desse adeus traz consigo o reconhecimento profundo de uma trajetória que mudou o destino de um imigrante. Sem a mão estendida de Silvio, o Jassa poderia ter sido apenas mais um sonhador vindo do Nordeste para tentar a sorte na selva de pedra paulistana. Mas, graças ao amigo, ele se tornou referência e prova viva de que a elegância de um homem não está apenas no corte de cabelo, mas na capacidade de ser grato a quem o ajudou a brilhar.