Carlos Gilberto Triel
Na distante adolescência dos anos 60 e 70, ser artista parecia o atalho mais curto para chegar às mocinhas papo firme que o Roberto Carlos cantava nas vitrolas da época. O romantismo vinha embalado em compacto simples, e a gente acreditava que um microfone na mão resolvia metade da vida. Confesso que levei essa ideia muito a sério. Talvez sério demais para um garoto de onze anos. Mas quem disse que sonhos juvenis conhecem moderação?
Foi assim com esse 11 anos de vida que um dia me vi subindo, degrau por degrau, até o vigésimo segundo andar do lendário Edifício A Noite, na Praça Mauá, só para conhecer a Rádio Nacional. Para mim, aquilo era quase uma peregrinação artística. O destino tinha nome e sobrenome: o rádio-ator Milton Rangel, o inesquecível Jerônimo, o Herói do Sertão. Aquele encontro, ainda que breve, tinha o peso de um batismo. Eu saí dali convencido de que estava no caminho certo.
Dos onze aos dezoito anos, a vida tratou de ajeitar as coisas, inclusive a tal “voz importada”, que finalmente resolveu aparecer. A locução radiofônica me deu traquejo, ritmo e um certo charme comunicativo. Serviu para muitos caminhos profissionais depois. Mas sejamos honestos: naquele tempo o objetivo estratégico era outro. Todo aquele esforço tinha endereço certo — e usava saia rodada ou mini-saia.
Quando a voz já estava devidamente modulada, inspirada nos timbres elegantes de locutores como Roberto Faisal e Odair Marzano, faltava apenas um detalhe importante: a aparência de galã de cinema. Eu mirava alto, muito alto. Pensava nos heróis de tela larga como Charlton Heston, Burt Lancaster e Robert Redford; e, por aqui, nos galãs nacionais Reginaldo Faria, Carlo Mossy e John Herbert. Ali percebi que o meu andar no prédio da fama talvez ficasse alguns andares abaixo.
Ainda assim, olhando hoje pelo retrovisor generoso da memória, não há do que reclamar. Entre tropeços, ilusões e algumas boas gargalhadas, a vida foi incrivelmente tolerante comigo. Deus, em sua paciência magnânima, resolveu me manter por aqui atravessando séculos.
E cá estou: um sobrevivente daqueles tempos românticos, talvez não exatamente um galã, mas vivo, bem-humorado e profundamente grato pela aventura.
