Nos anos 50, na Praça de Santo Antônio, em Guarus, Campos dos Goitacazes, uma bola de borracha já era uma pequena riqueza; de couro, nem pensar — a molecada corria atrás da bola de meia, descalça, feliz com tão pouco. Até que a notícia chegou pela estrada que margeava a beira-rio: o caminhão havia atropelado e matado um dos meninos, o Bicada. A brincadeira perdeu a graça naquele dia, e o nome dele ficou guardado para sempre na memória de quem era criança. Também ficou a lembrança da queda do helicóptero que matou o governador Roberto Silveira.
Hoje, com a morte do cantor Rick em acidente aéreo e de tantas crianças por razões outras, a gente se pergunta para onde foi aquela capacidade de parar, sentir e guardar. Talvez o mundo tenha ficado mais veloz, mas a memória ficou mais curta: antigamente, uma tragédia entrava pela porta, sentava na sala e permanecia conosco; hoje, chega pela tela do celular, provoca um espanto ligeiro e logo é empurrada pelo próximo acontecimento. E é nessa diferença que bate a saudade — não apenas do tempo que passou, mas de um tempo em que as coisas, até as mais simples, pareciam ter alma.
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