sábado, 19 de setembro de 2026

FARINHA POUCA, MEU PIRÃO PRIMEIRO

Ainda sobre Thiago Lacerda: vendo aquele rosto desfigurado pelo furor uterino de quem parece ter acabado de parir a besta do Apocalipse, não pude deixar de lembrar de certas expressões de Lindbergh e Janones — aquela mistura de indignação, certeza absoluta e a convicção de que a própria régua moral deveria servir para medir o mundo inteiro. É o tipo de coisa que me faz lembrar do que escrevi dias atrás sobre o tal “discernimento de aluguel”: gente que a gente procura quando quer ouvir, além da voz humana, um pouco de razão.

E essa história me levou ao Barbosinha, que contou certa vez que ele e outros palestrantes de seu centro espírita resolveram expurgar Divaldo Pereira Franco porque o homem declarou votar em Bolsonaro. Quando questionado se aquilo não contrariava a doutrina de Kardec, veio a explicação definitiva: “Porque Bolsonaro não é humano.” De repente, a indignação de Thiago, Lindbergh e Janones ganha uma velha companhia: a certeza de que, quando o outro pensa diferente, até o bom senso pode ser colocado para fora pela porta dos fundos.

Talvez seja justamente aí que esteja o nosso problema: certas pessoas se julgam tão raras, tão iluminadas e tão indispensáveis que acabam imaginando que o país lhes pertence por direito adquirido. Querem o Estado para patrocinar suas convicções, o contribuinte para bancar a conta e, de preferência, o trabalhador para continuar trabalhando em silêncio — afinal, discernimento também tem seus custos, principalmente quando é de aluguel.

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