Certa vez, pelos microfones poderosos da Rádio Tropical — era assim, com essa modéstia toda, que eu chamava a emissora onde apresentava o Onda Tropical — eu tinha como parceiro um jovem senhor de oito décadas, mais cinco aninhos de contrapeso: Edson Tigrão. Baixinho, simpático e dono de uma voz que já trabalhava no rádio quando o rádio ainda estava aprendendo a andar, o Tigrão era uma espécie de patrimônio histórico com microfone.
Era domingo, programa no ar, quando uma ouvinte entrou nos estúdios aos berros, acusando o Tigrão de canalha, omisso e pai desnaturado, por tê-la abandonado ainda criança. Disse que o reconhecera pela voz, a mesma que, segundo ela, embalara seu berço lá pela metade do século passado. Afirmou que o sujeito seduzira sua mãe valendo-se de sua famosa “anaconda implacável” e, depois, fugira da responsabilidade. O Tigrão, emocionado, já abraçava a suposta filha, pedia perdão a Deus, a São Jorge e aos cambaus, enquanto o diretor, desconfiado, exigia um documento que comprovasse aquela paternidade cinematográfica.
Foi quando veio o detalhe capaz de derrubar até antena de rádio: o diretor descobriu que a venerável filha abandonada era dois anos mais velha que o próprio Tigrão! A tragédia virou comédia em questão de segundos, e o homem que já estava se preparando para assumir décadas de culpa paterna quase precisou de colo. A suposta filha, que chegara para desmascarar um pai ausente, acabou descobrindo que, naquela história, ela tinha sido abandonada pelo calendário — e o Tigrão, absolvido pela certidão de nascimento, pôde voltar ao microfone com a dignidade intacta e a anaconda devidamente inocentada.
Nenhum comentário:
Postar um comentário