quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

COCA-COLA, MEU GAFANHOTO FAVORITO

 Carlos Gilberto Triel

Vivemos tempos curiosos — e perigosos. Nunca se produziu tanta informação e, paradoxalmente, nunca foi tão difícil distinguir fato de narrativa. O terror contemporâneo não vem apenas da violência explícita ou das crises econômicas, mas da fabricação diária do medo, impulsionada por influenciadores que se alimentam da polêmica e não do compromisso com a verdade.

Nesse cenário, produtos, ideias ou pessoas são eleitos vilões universais. A Coca-Cola, por exemplo, torna-se o “gafanhoto do mundo”: tudo o que há de errado na saúde coletiva passa a ser atribuído a ela, ignorando contexto histórico, evidências científicas e, sobretudo, o papel do excesso e do estilo de vida. A complexidade dos fatos é substituída por frases de impacto, prontas para viralizar.

O mesmo ocorre quando se resgata o passado de forma seletiva. Sim, a Coca-Cola nasceu como um tônico farmacêutico no século XIX — como tantos outros produtos da época. Isso não a transforma automaticamente em remédio nem em veneno moderno. Mas, na lógica do terror digital, a nuance não tem valor; o que importa é o choque, a indignação e o engajamento gerado pelo medo.

Influenciadores sem preparo técnico ou ético frequentemente confundem associação com causalidade, estudo preliminar com verdade absoluta e opinião com ciência. O resultado é um público alarmado, desconfiado de tudo e incapaz de fazer escolhas racionais. O medo passa a ser um produto altamente lucrativo — e a verdade, um detalhe incômodo.

O problema real raramente está em um refrigerante, um alimento ou um hábito isolado, mas na repetição, no abuso e na falta de equilíbrio. Ainda assim, apontar isso não rende curtidas nem seguidores. É mais fácil vender pânico do que responsabilidade, mais rentável gritar “veneno” do que ensinar moderação.

Talvez o verdadeiro terror dos nossos tempos não seja o que consumimos, mas o que aceitamos como verdade sem questionar. Enquanto a narrativa do medo continuar valendo mais do que os fatos, sempre haverá um novo “gafanhoto do mundo” para distrair a atenção — e poucos dispostos a enfrentar a realidade com honestidade intelectual.

Nenhum comentário:

Postar um comentário