sábado, 14 de fevereiro de 2026

Os Espíritos de Porco

Nas redes sociais — esse coliseu de dedo nervoso e memória curta — espalhou-se a notícia de que uma conhecida atriz da TV aberta confessou sentir “nojo” de bolsonaristas. A frase, que poderia render debate, virou buzina de torcida. Discordar já não basta; é preciso higienizar o outro com desinfetante moral. A plateia digital, sempre pronta para o espetáculo, entrou em êxtase performático. E a empatia, coitada, ficou na fila do cancelamento aguardando senha que nunca chega.

A réplica veio em linguagem de zoológico: cobras, marimbondos e demais espécimes convocados para substituir argumentos. É curioso como a fauna cresce quando o raciocínio mingua. Não se conversa — se sibila. Não se pondera — se ferroa. A timeline vira picadeiro e cada um exibe sua indignação como quem exibe bíceps. No fim, sobra barulho e falta pensamento, mas aplauso nunca falta quando o script é previsível.

Dá a sensação de que a venerável senhora não ocupa o horário nobre por talento ou audiência, mas por militância patrocinada, dessas que vêm com manual e hashtag. A régua do mérito agora mede alinhamento ideológico em centímetros exatos. O cachê parece incluir a cláusula “opinião obrigatória”. E assim se fabrica relevância com espuma de cappuccino: volumosa, fotogênica e inconsistente. Confunde-se eco com profundidade — e profundidade dá muito trabalho.

Enquanto isso, corre a história de que seis palestrantes de um centro espírita em Nova Iguaçu torceram o nariz para Divaldo Pereira Franco por ter ousado defender Jair Bolsonaro. Em nome da luz, apagam-se lâmpadas; em nome da caridade, distribuem-se rótulos. A divergência vira heresia, e a tolerância, item fora de estoque. O altar ganha microfone, o microfone vira palanque. E o Evangelho, se não couber na pauta, que espere a próxima encarnação.

No fim das contas, o mais espantoso não é a opinião de A ou B, mas a facilidade com que se transforma o outro em caricatura. Pessoas que juram defender o bem comum mostram alergia crônica ao contraditório. O achismo, vestido de toga, proclama sentenças com a segurança de quem nunca duvidou de si. Seguimos todos muito convictos, muito inflamados e pouquíssimo interessados em compreender. Porque, convenhamos, compreender exige humildade — e humildade não rende curtida.

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