Carlos Gilberto Triel
Há algo de curioso — e ao mesmo tempo triste — em observar certos militantes já entrados em idade, cabelos brancos e diplomas emoldurados na parede, desfilando fúria no Facebook como adolescentes tardios. Auto proclamam-se professores, arautos da virtude e da civilização, mas trocam o giz pela ofensa rasteira. Não debatem ideias: alvejam pessoas. Não confrontam argumentos: atacam famílias. E fazem isso com uma convicção quase religiosa de que estão blindados pelo tempo — e pelo poder.
O ex-presidente Jair Bolsonaro vira alvo preferencial, mas não só ele: estendem o chicote verbal à esposa, aos filhos, aos eleitores, a qualquer um que ouse discordar. É a pedagogia da humilhação pública, ministrada em posts inflamados e comentários venenosos. Chamam isso de consciência política; parece mais ausência dela. Confundem militância com licença para difamar. E acreditam, sinceramente, que tudo ficará por isso mesmo.
Talvez ajude a explicar essa ousadia a fé inabalável de que o governo atual é eterno, imexível, imune às marés da história. Na imaginação desses cruzados digitais, Lula permanecerá para sempre no Planalto e o Supremo Tribunal Federal surgirá como anjo da guarda de cada impropério publicado. Se houver denúncia, processo ou constrangimento, acreditam que haverá sempre uma mão poderosa a afagar-lhes a cabeça. É uma confiança quase mística na eternidade do poder. E a história, como sabemos, não costuma respeitar misticismos políticos.
O que causa espécie não é apenas a agressividade, mas a ilusão de prazo de validade estendido. Julgam que poderão passar os anos restantes distribuindo calúnias como quem distribui panfletos. Esquecem que a internet arquiva, que o tempo revela, que o cenário político muda. Hoje a claque aplaude; amanhã pode silenciar. E quando a maré virar, descobrirão que prints não envelhecem e palavras não evaporam.
Há também um traço de vitimismo curioso: levantam a bandeira de um mundo ideal enquanto praticam a intolerância mais banal. Falam em democracia com os dedos crispados no teclado. Defendem a liberdade enquanto desejam o silenciamento do outro. E, ironicamente, muitos desses veteranos da retórica parecem não suportar divergência nem dentro da própria sala de estar. A revolução que pregam começa sempre no quintal alheio.
Talvez fosse prudente — por uma questão de tempo útil de vida e de biografia — colocar as barbas, os bigodes e as convicções de molho. Porque regimes passam, governos mudam, tribunais julgam, e a responsabilidade individual não prescreve com curtidas. A história brasileira é pródiga em reviravoltas. E quando o país for passado a limpo, não haverá legenda ideológica capaz de apagar ofensas, nem padrinho político que substitua a própria consciência.
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