Carlos Gilberto Triel
Há dias em que olho para trás e me vejo jovem, microfone na mão, voz impostada e carteirinha no bolso, achando que era o próprio dono da verdade. Era um orgulho meio besta, confesso, mas sincero. A imprensa, para mim, era templo e trincheira. Aprendi cedo que notícia corre, mas gente espera. E quem espera, quase sempre, espera sozinho.
Foram anos na porta de delegacias e hospitais, narrando as mesmas dores com nomes diferentes. Mudavam os endereços, trocavam-se os personagens, mas o enredo era idêntico. A chamada “comédia humana” nunca saiu de cartaz. O curioso é que a imprensa sempre esteve ali, registrando tudo. Já os sindicatos, muitas vezes, estavam ocupados demais para ouvir.
Na pandemia, a comunicação virou oráculo oficial. Enquanto famílias tremiam trancadas em casa, só se ouvia uma verdade permitida. Influenciadores lacravam, especialistas divergiam em sussurros, e a esperança vinha carimbada com selo institucional. Quem questionava era herege. E no meio da angústia coletiva, faltou o principal: alguém que traduzisse o medo do cidadão comum.
Hoje, guardadas as proporções, a reforma tributária avança como tempestade anunciada. Contadores se multiplicam nas redes, oferecendo a “vacina fiscal” contra o vírus da multa. O produtor, o comerciante, o pequeno empresário — todos com o coração na boca. Informação há de sobra; orientação segura, nem tanto. E mais uma vez, quem deveria estar ao lado da base parece falar para si mesmo.
E os sindicatos rurais? Ah, esses precisam decidir se serão retrato na parede ou voz ativa no campo. O associado não quer coquetel, quer amparo. Não quer discurso protocolar, quer posicionamento firme. Ou se mostram indispensáveis agora, ou correm o risco de virar nota de rodapé na próxima legislatura. Porque, no fim das contas, representação que não representa vira apenas lembrança.
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