sábado, 9 de maio de 2026

DUDA REINALDO, O PREFEITO DE NOVA LARANJA

Carlos Gilberto Triel

Prefeito Duda Reinaldo entrou na prefeitura igual caminhão sem freio e já foi berrando pro chefe de gabinete:

— Gargamel, hoje eu só recebo meu padrinho Rosbipierre Lisboeta e olhe lá. O resto pode dizer que morri, fui abduzido ou virei coach motivacional.

Gargamel Soprano levantou num pulo e saiu atrás do prefeito abanando papel pra todo lado:

— Prefeito, não queria estragar seu mau humor, mas o vereador-deputado Aelton Jeová tá aí desde sete da manhã. Já comeu três cafés, dois pães de queijo e uma samambaia da recepção.

Duda Reinaldo nem piscou:

— Nem se a vaca aprender balé e o bode abrir conta em banco eu recebo esse encosto político.

Gargamel Soprano insistiu igual cobrança de operadora:

— Prefeito, o homem tá perigosíssimo. Disse que se o senhor não atender, vai fazer live, podcast, thread, dancinha e até vídeo chorando no carro falando de perseguição política.

Duda Reinaldo levou a mão ao peito e fez cara de novela mexicana:

— Senhor Deus, por acaso acabou o estoque de meteorito? Manda pelo menos uma praga premium aí pra resolver isso!

Nisso, o vereador Carlitos BNDES entrou na sala sem bater, mascando chiclete e cheirando a emenda parlamentar:

— Dudão, preciso daquele caminhão de asfalto lá pro bairro Cabrito Capado. O povo tá atolando até de chinelo.

Duda já começou a suar igual tampa de marmita:

— Outro caminhão, Carlitos!? Rapaz, ontem eu mandei dois, um rolo compressor e quase uma escavadeira!

Carlitos BNDES abriu aquele sorriso de vendedor de consórcio:

— Dudinha do povo, a situação tá feia. A rua Bigode de Arame tá tão esburacada que o pessoal já tá pescando tilápia nas crateras.

Duda Reinaldo apontou o dedo sem paciência:

— Já sei… se eu não mandar asfalto, o deputado Avis Raras vai te infernizar até no grupo da família, né?

Carlitos BNDES foi direto massagear o ego do prefeito:

— Exatamente, meu futuro presidente da República, imperador da baixada e orgulho dos marqueteiros.

Duda abriu um sorriso de quem já imaginou a própria estátua:

— Para com isso, Carlitos… assim eu fico humilde demais. Ainda preciso ser governador antes de salvar o planeta.

Gargamel Soprano interrompeu a bajulação já em desespero:

— Prefeito! O vereador-deputado Aelton Jeová foi embora cuspindo marimbondo. Disse que vai fazer sua caveira pro ex-governador Menininho!

Duda Reinaldo quase engoliu a dentadura imaginária:

— Misericórdia! Se eu soubesse que ele ia apelar praquele fofoqueiro profissional eu tinha recebido até com café e bolo!

Carlitos BNDES fez o sinal da cruz em câmera lenta:

— Cruz credo, saravá, bate na madeira e amarra a ferradura! Quando Menininho entra numa conversa até o Wi-Fi fica com medo.

Duda já parecia um chuveiro humano:

— Gargamel, corre atrás do Aelton! Diz que houve um mal-entendido, uma falha cósmica, um problema espiritual… fala qualquer coisa!

Missão dada, missão cumprida. Gargamel saiu desembestado e voltou cinco minutos depois, ofegante:

— Prefeito, alcancei o vereador-deputado Aelton Jeová. Ele agradeceu o convite e disse que volta outro dia. Perguntei quando pra deixar agendado…

Duda abriu um sorriso aliviado:

— Ainda bem… e quando essa carreta de problema disse que volta?

Gargamel Soprano baixou a cabeça, sem coragem:

— O miserávi falou que volta em 2028… já como prefeito eleito.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Entre Woody Allen e os Profetas da Boêmia Ideológica

Carlos Gilberto Triel

Aos 90 anos, Woody Allen continua sendo símbolo de um humor sofisticado, observador e livre de cartilha ideológica. Já no Brasil, como observou Adrilles Jorge, muitos dos que se vendem como humoristas trocaram a inteligência pela militância rasteira. A piada perdeu espaço para o deboche político barato, sempre protegido pela claque do poder e pelos aplausos automáticos da bolha.

O mais curioso é ver surgir também os “educadores” da internet e seus derivados da boêmia etílica: figuras de raciocínio esquerdista previsível, aparência maltratada pelo álcool e discurso carregado de superioridade moral. Falam como se fossem guardiões da consciência humana, mas passam boa parte do tempo distribuindo ofensas, ressentimento e arrogância contra quem não se ajoelha às mesmas opiniões. Confundem desequilíbrio emocional com profundidade intelectual.

Nas redes sociais, essa turma posa de culta, sensível e revolucionária, enquanto transforma inveja e frustração em conteúdo diário. Muitos já perderam a leveza, o humor e até o brilho pessoal, mas seguem se apresentando como faróis da virtude moderna. No fim, acabam revelando exatamente aquilo que fingem combater: intolerância, vaidade e uma necessidade desesperada de aprovação ideológica.

sábado, 2 de maio de 2026

O "Desconfiômetro" e a Narrativa do Bitcoin

Carlos Gilberto Triel 

Faz tempo que o papo entusiasmado do meu amigo Dener sobre o tal "Brasil Paralelo" ficou ecoando na minha cabeça. Ele jurava que o time era de primeira, desvendando as entranhas do poder e revelando o que ninguém mais ousava mostrar com tamanha clareza. Movido por essa curiosidade instigada por uma recomendação tão calorosa, resolvi dar o benefício da dúvida e espiar o que aqueles especialistas de fato entregavam.

​O problema começou quando decidi investir em um curso de criptomoedas oferecido pela plataforma, esperando conteúdo denso sobre o famoso Bitcoin. Para minha decepção, após pagar e encarar explicações intermináveis, percebi que havia comprado apenas uma introdução teórica regada a "blá-blá-blá" narrativo. Ficou aquele gosto amargo de quem pagou pelo ingresso, mas descobriu que, para ver o show de verdade, teria que desembolsar uma segunda etapa.

​Essa experiência deixou um legado de ceticismo que carrego comigo toda vez que algum anúncio milagroso brota no meu feed das redes sociais. Agora, o meu "desconfiômetro" acende o sinal vermelho imediatamente diante de promessas de cursos que parecem mais iscas do que ferramentas de aprendizado. Aprendi, do jeito mais caro, que muita gente cobra caro apenas para descrever o cenário, deixando o ensino real para um amanhã que nunca chega.

domingo, 26 de abril de 2026

FÉ E QUÂNTICA, OS SANTOS FORA DO SEU TEMPO

Carlos Gilberto Triel

Sabe aquela sensação de que o tempo é uma linha reta? Pois é, com Padre Pio e Santo Antônio essa lógica vai para o ralo. A bilocação mostra que eles podiam estar aqui e lá ao mesmo tempo, provando que o espaço e o tempo são muito mais flexíveis do que a gente imagina na correria do dia a dia.

Quando a prece diz que Pio participou da Paixão, é como se ele tivesse pego um atalho espiritual para o passado. Ele não estava apenas lembrando de algo que aconteceu; ele estava lá, sentindo tudo na pele, conectando o século vinte diretamente ao Calvário através de uma fenda que só o mistério explica.

No fim das contas, esses santos parecem viajantes que não precisam de máquinas, apenas de uma fé gigante para dobrar a realidade. Seja Antônio pregando em duas cidades de uma vez ou Pio vivendo as dores de Cristo, ambos mostram que o amor é a única força capaz de vencer as barreiras do relógio


sexta-feira, 24 de abril de 2026

MUITO ALÉM DO JARDIM

Carlos Gilberto Triel

O curioso do filme Muito Além do Jardim é que o jardineiro não engana ninguém — ele apenas é tomado por aquilo que os outros desejam ver. Sua fala simples, quase literal, ganha ares de profundidade num ambiente que já não distingue sabedoria de projeção. O mundo ao redor, sedento por sentido, transforma banalidade em filosofia. E assim, Chance cresce não por mérito, mas pela carência alheia de referências reais.

Revendo hoje, o filme parece menos uma fábula e mais um espelho desconfortável. A ingenuidade do jardineiro encontra eco em uma sociedade que prefere narrativas fáceis à complexidade dos fatos. No terreno da política, isso se traduz numa dinâmica em que símbolos e discursos simplificados ocupam o lugar de propostas concretas. O conteúdo cede espaço à performance — e quem melhor encarna um papel convincente, leva.

Nesse cenário, o vitimismo se torna uma ferramenta poderosa. Ao se colocar constantemente na posição de injustiçado, cria-se um escudo contra críticas e uma ponte direta com emoções primárias do eleitor. A lógica é simples: se há um opressor, qualquer questionamento passa a ser visto como perseguição. O debate empobrece, e a análise cede lugar à adesão emocional. Não se discute mais o que é dito, mas quem supostamente sofre.

O paralelo com o jardineiro é inevitável. Assim como Chance, certas figuras públicas prosperam não pela densidade de suas ideias, mas pela forma como são interpretadas por um público predisposto. A diferença é que, no filme, há um tom de ironia quase inocente; na política real, as consequências são concretas e duradouras. A ingenuidade, quando instrumentalizada, deixa de ser apenas um traço humano — torna-se estratégia.

Talvez a lição mais incômoda seja esta: o problema não está apenas em quem fala, mas em quem escuta. Enquanto houver disposição para transformar simplicidade em genialidade e vitimismo em virtude incontestável, o jardim continuará sendo cultivado — não pela verdade, mas pela conveniência.

domingo, 19 de abril de 2026

OS TRAIDORES DE SI MESMO

Carlos Gilberto Triel

Há um curioso desfile nas redes: intelectuais e influenciadores criticam Trump e a direita com o olhar de crianças deslumbradas diante de vitrines de brinquedos. No passado, esses mesmos atores jamais defenderiam pautas contra judeus, o aborto, a censura ou a judicialização do torto, mas hoje tropeçam na coerência básica. Falam alto, ignorando o simples como quem esquece a seta no trânsito; o óbvio virou um incômodo e a lógica tornou-se meramente opcional nesta fase da vida.

​A metáfora é direta: certas regras não são ideológicas, são civilizatórias, mas muitos preferem atalhos retóricos para sustentar o que antes seria considerado indefensável. É irônico ver defensores da liberdade flertarem com o cerceamento de falas e com o uso do Judiciário para moldar o que é certo ou errado por pura conveniência. Muitos que se apresentam como educadores conhecem a farsa que propagam, mas seguem adiante pelo aplauso fácil, enterrando princípios que outrora pareciam ser inegociáveis.

​No fim, multiplicam-se dedos acusatórios contra quem respeita o “sinal verde” da razão, enquanto o senso comum é trocado por narrativas moldáveis e perigosas. A defesa de pautas que ferem a tradição e a ética demonstra que a autoridade intelectual se esvai quando se ignora o básico da própria história. Talvez seja hora de reaprender os fundamentos, pois sem o lastro da verdade e da justiça, nem o discurso se sustenta, nem a integridade moral consegue se manter.


quarta-feira, 15 de abril de 2026

UM PREFEITO DE SORTE

Carlos Gilberto Triel

O prefeito de Nova Laranja, Duda Reinaldo chegou no gabinete cuspindo maribondos, não sem antes conferir no espelhinho portátil os fios de cabelo resilientes.

- Assim não dá, Assim não dá! Essa cambada não larga do meu pé! 

A secretária Malu Tarantella preocupadíssima com o chefe:

- O que aconteceu, prefeito? 

Duda Reinaldo guardou o espelhinho, passou a mão na testa retornando com dois fiozinhos rebeldes ao patamar da cabeça, e se pôs a lamentar:

- Malu, que culpa tenho que o motorista da carreta dá uma porrada no viaduto, eu chego rapidinho pra dar força pro contribuinte e, os subvencionados metidos a jornalistas me esculhambam.

Malu Tarantella, uma exagerada:

- Liga não prefeito, assim como foi com Churchill, Kennedy, Obama e o Trump, o Sr. também passa por igual provação com a imprensa.

Duda Reinaldo nem disfarçou que gostou, pigarreou, pôs a mão fechada no queixo, franziu a testa com pose de conteúdo, e não fez por menos, viajou na maionese:

- A diferença minha cara Malu, é que esses meus colegas estadistas tiveram um longo cronograma de espera, o meu destino é chegar logo ao governo do Rio e quatro anos depois à presidência do Brasil.

Mario Sabonete, o assessor para motivação, um baba ovo arrumado:

- Grande Duda, além de predestinado, tu é um cabra de sorte, nasceu de duas letrinhas viradas pra lua, e quanto a essa oposição, os cães ladram e a caravana passa.

Malu Tarantella direta ao ponto:

- Exatamente. Quem na história de Nova Laranja teve tanta sorte, concorreu e já na primeira eleição foi alçado a presidente da Câmara e depois prefeito?

Mario Sabonete insuperável na puxação de saco:

- Isso sem falar que você foi o primeiro prefeito de Nova Laranja a mostrar intimidade com o futebol. 

Duda Reinaldo que já estava ficando alegrinho, lembrou da porrada que levou na sua partida de futebol como prefeito:

- Ih nem me fale, toda vez que lembro desse jogo minha vontade é ligar pro Xandaquistão e pedir a prisão daquele meliante que me acertou de forma criminosa.

Mario Sabonete sabe vender bem seu peixe:

- Ô meu prefeito, fica assim não, quando pintar esse clima de depressão siga o mantra do nosso deputado Julinho da Roda: Energia! Muita Energia!

Duda Reinaldo, não gostou:

- Energia do Julinho da Roda!!? Tô fora, aquilo não tem energia nem pra rapel de anão.

Pauli Pestana, o meste de cerimônias de festas juninas entrou na conversa:

- Prefeito, de acordo com sua determinação o Arraiá da Jura já reservou um camarote especial para o seu convidado de fama internacional...

Duda Reinaldo, olhinhos brilharam de alegria: 

- Perfeito, já entrei em contato com o gabinete de apoio do meu convidado, estou no aguardo da resposta.

Todos se entre olharam e juntos  perguntaram:

- Quem seria?

Duda Reinaldo, pescoço com altivez de uma marmota observando possíveis predadores na pradaria:

- Confesso que pensei no Donald Trump, mas não quero problemas com o governo federal. Então decidi convocar o meu amigo Charles.

Todos novamente se entre olharam e juntos perguntaram:

- O Rei Charles da Inglaterra? 

Duda Reinaldo, desdenhou a resposta e não se fez de rogado:

- Que Rei Charles nada, convidei foi o Charlles Rekson patrão e amigo do Tiringa.



terça-feira, 31 de março de 2026

O ÚLTIMO CAPRICHO NO AMIGO

Carlos Gilberto Triel

Passados quase dois anos da partida do "Patrão", a memória me pregou uma peça nostálgica ao resgatar a figura de José Jacenildo dos Santos. O Brasil inteiro conheceu o Jassa não apenas como o mestre das tesouras, mas como o fiel confidente que, por quatro décadas, moldou a imagem mais icônica da nossa televisão. Era um ritual sagrado: Silvio sentado na cadeira, a irreverência no ar e o anúncio de que o visual ganharia aquele "capricho" especial diante das câmeras.

​O que vimos na tela, entretanto, era apenas a ponta de um iceberg feito de uma lealdade raríssima no mundo das vaidades. Silvio Santos não apenas confiava seu rosto ao amigo paraibano, mas fazia questão de abrir as portas da fama para aquele que cuidava de sua autoestima. Foram décadas de uma promoção generosa, onde o apresentador trazia o barbeiro para o centro do palco, transformando uma relação profissional em um laço de irmandade que o tempo se encarregou de eternizar.

​Fico aqui a imaginar o peso do silêncio e a emoção que inundou o peito de Jassa ao ser convocado pela família Abravanel para o último encontro. Deve ter sido o serviço mais difícil de sua vida: preparar o corpo do velho amigo para o descanso eterno, enfrentando aquele nó na garganta que nos assombra. Ali, diante da imobilidade de quem tanto gesticulou, as mãos do artista certamente tremeram ao retribuir, em silêncio, tantos anos de absoluta confiança.

​Naquele instante de despedida, o que terá passado pela cabeça do homem que ouviu tantas confidências sobre política, futebol e as amenidades da vida? Entre um corte e outro, eles desfiaram o cotidiano e compartilharam as dores e alegrias de verem os filhos crescerem, em um confessionário de poltrona de couro. O Jassa, naquele momento final, era a síntese da gratidão, o guardião de segredos que agora repousam em um lugar onde as luzes do estúdio jamais conseguem alcançar.

​A consciência desse adeus traz consigo o reconhecimento profundo de uma trajetória que mudou o destino de um imigrante. Sem a mão estendida de Silvio, o Jassa poderia ter sido apenas mais um sonhador vindo do Nordeste para tentar a sorte na selva de pedra paulistana. Mas, graças ao amigo, ele se tornou referência e prova viva de que a elegância de um homem não está apenas no corte de cabelo, mas na capacidade de ser grato a quem o ajudou a brilhar.

domingo, 29 de março de 2026

Garotinho "Bukele" versus Paes "Velhinho": O Duelo das Raposas

 Carlos Gilberto Triel

O tabuleiro político fluminense em 2026 tá mais enrolado que fone de ouvido no bolso, com Eduardo Paes posando de favorito com o selo do Planalto no peito. O nosso "Dudu das Antigas" acha que estar colado com o Lula é passaporte para o céu, mas esquece que no Rio o favoritismo costuma caducar antes do leite. Enquanto isso, o inoxidável Anthony Garotinho, que tem mais fôlego que maratonista queniano, aposta tudo no contra-ataque certeiro. Ele sabe que, por aqui, um contraste bem desenhado vale mais que mil pesquisas de intenção de voto compradas.

​Garotinho, o mestre da "lábia de feira", tá tentando um drible de mestre ao piscar o olho para a turma do Bolsonaro, tentando herdar aquele espólio de votos órfãos. Ele anda por aí se vendendo como uma espécie de Nayib Bukele das terras fluminenses: o cabra destemido, conhecedor profundo dos subterrâneos do crime, jurando de pé junto que tem a fórmula mágica para acabar com o crime organizado num estalar de dedos. Não é amor de Carnaval, é puro cálculo de sobrevivência política: quem tem urticária de Lula vai acabar abraçando o Garotinho só de pirraça, na esperança de um "mão de ferro" à la El Salvador.

​Já o Paes carrega um combo ingrato: ganha as chaves do cofre federal, mas leva junto todas as pedradas que a oposição atira na vidraça da Praça dos Três Poderes. Se o governo lá em cima der um espirro, o prefeito daqui é quem corre para tomar a Benegrip política sob o sol escaldante da orla. Com essa polarização mais azeda que limão galego, o eleitor não quer saber de papo furado e transforma a eleição estadual num terceiro turno da briga de Brasília. O Dudu vira o alvo da vez, carregando o bônus e o ônus de ser o "queridinho" da capital.

​É justamente nesse "salve-se quem puder" que aquela virada de última hora, típica de quem conhece os becos do estado, pode dar as caras e bagunçar o coreto dos analistas. Se o Garotinho conseguir se vender como o único herói capaz de barrar a "invasão lulista", ele vai crescer feito massa de pão com fermento vencido. A história do nosso Rio mostra que o eleitorado adora um movimento brusco aos 45 do segundo tempo, especialmente se tiver aquele apelo emocional de novela das oito e cheiro de povo. É o famoso "quem não chora, não mama".

​No fim da feira, mesmo que a foto de hoje mostre o Paes sorrindo na frente, o filme da eleição fluminense ainda tem muito suspense e pouca pipoca garantida. Se a briga nacionalizar de vez e o Garotinho souber usar a malandragem que Deus lhe deu, o jogo vai ficar mais apertado que terno de padrinho de casamento. No Rio de Janeiro, meu camarada, a eleição é como final de campeonato no Maracanã: só acaba quando o juiz apita e a torcida invade o campo. Até lá, é melhor garantir o estoque de calmante e observar a dança das cadeiras.


sexta-feira, 20 de março de 2026

O FEIOSO

Carlos Gilberto Triel

Zeca Sebozinho resolveu dar um trato na Fiorino, mangueira, água, sabão e com o pagode no toca fitas rodstar nas alturas:

- Na moral, amanhã, antes do meio dia, se não chover, trago pra casa o bacalhau da semana Santa.

O garotinho do outro lado da calçada que ia pra escola virou pra mãe e disse:

- Olha lá mãe, como aquele cara é feio!

Stela Friquique  deu-lhe um cascudo arrumado e tentou falar baixinho:

- Não fala isso, peste. A gente pode ser preso. 

Zeca Sebozinho ficou brabo que nem siri na lata:

- Eu ouvi! Eu Ouvi! Amanhã mesmo vou ao diretório do PT pra denunciar vocês ao Supremo.

 Stela Friquique sentiu que era preciso usar seu charme:

- Ô gatão, liga não, ciúmes desse moleque. Ficou com raiva porque que achei você a cara do Brad Pitt.

Sebozinho foi atingido em cheio, de tão bobo quase escorregou na espuma.

Mas, o garotinho jogou a pá de cal:

- Mãe, como você é mentirosa! Esse sujeito é tão feio que assusta até defunto.

Zeca Sebozinho começou a dar pulinhos e gritar ao mesmo tempo:

- Isso é preconceito!  Vou pedir pra Élida Rildo denunciar esse pivete na Corte Internacional.

Alfredinho Tamanduá, da banca de bicho botou mais lenha na fogueira:

- Ô da mangueira mole, não me leve a mal, mas a pessoa do garoto tem razão, com todo respeito, mas você é muito feio!

Irmã Isaurinha Chupeta, incendiou geral:

- Também acho, se o senhor aparecer no dia do culto da Fogueira Insana lá da minha igreja, o pastor vai dizer que o Capeta apareceu aí vivo e a cores.

Zeca Sebozinho era um só desespero:

- Mas onde nós estamos!!?  Feio é o passado das suas mamãezinhas, por que vocês não vão pra pata que pariu um patinho!

Seu Walfrido do Sacolão que ia passando tentou aliviar: 

- Não falem assim, graças ao Sebozinho aqui na rua nunca ninguém foi assaltado, bandido tem o maior medo de pegar sua feiúra.

O garotinho voltou a atacar:

- O Senhor devia tá no Zoológico, lá ia fazer o maior sucesso.

Alfredinho Tamanduá tirando onda de ambientalista:

- Trabalhei com Jaques Castor num documentário, sei o que falo, seu Sebozinho de tão feio jamais seria adaptável ao meio ambiente de um Parque de Animais.

Foi aí nesse ponto que Zeca Sebozinho perdeu o controle e partiu pra porrada, o garotinho foi o primeiro a correr, a mãe e os outros não tiveram a mesma sorte, todos foram pra delegacia e, Sebozinho comentou com o delegado:

Doutor Delegado, obrigado por me liberar, o Senhor é um homem justo.

O delegado foi direto ao ponto:

Justo é o meu cacete, por mim você estaria em cana, não lhe prendo porque as facções aqui dentro iam criar o maior tumulto com essa sua feiúra. 

Nota: Todos os personagens e fatos retratados são fictícios qualquer semelhança é coincidência.

quarta-feira, 11 de março de 2026

“O DIA QUE SUBI À RÁDIO NACIONAL"

Carlos Gilberto Triel

Na distante adolescência dos anos 60 e 70, ser artista parecia o atalho mais curto para chegar às mocinhas papo firme que o Roberto Carlos cantava nas vitrolas da época. O romantismo vinha embalado em compacto simples, e a gente acreditava que um microfone na mão resolvia metade da vida. Confesso que levei essa ideia muito a sério. Talvez sério demais para um garoto de onze anos. Mas quem disse que sonhos juvenis conhecem moderação?

Foi assim com esse 11 anos de vida que um dia me vi subindo, degrau por degrau, até o vigésimo segundo andar do lendário Edifício A Noite, na Praça Mauá, só para conhecer a Rádio Nacional. Para mim, aquilo era quase uma peregrinação artística. O destino tinha nome e sobrenome: o rádio-ator Milton Rangel, o inesquecível Jerônimo, o Herói do Sertão. Aquele encontro, ainda que breve, tinha o peso de um batismo. Eu saí dali convencido de que estava no caminho certo.

Dos onze aos dezoito anos, a vida tratou de ajeitar as coisas, inclusive a tal “voz importada”, que finalmente resolveu aparecer. A locução radiofônica me deu traquejo, ritmo e um certo charme comunicativo. Serviu para muitos caminhos profissionais depois. Mas sejamos honestos: naquele tempo o objetivo estratégico era outro. Todo aquele esforço tinha endereço certo — e usava saia rodada ou mini-saia.

Quando a voz já estava devidamente modulada, inspirada nos timbres elegantes de locutores como Roberto Faisal e Odair Marzano, faltava apenas um detalhe importante: a aparência de galã de cinema. Eu mirava alto, muito alto. Pensava nos heróis de tela larga como Charlton Heston, Burt Lancaster e Robert Redford; e, por aqui, nos galãs nacionais Reginaldo Faria, Carlo Mossy e John Herbert. Ali percebi que o meu andar no prédio da fama talvez ficasse alguns andares abaixo.

Ainda assim, olhando hoje pelo retrovisor generoso da memória, não há do que reclamar. Entre tropeços, ilusões e algumas boas gargalhadas, a vida foi incrivelmente tolerante comigo. Deus, em sua paciência magnânima, resolveu me manter por aqui atravessando séculos.

E cá estou: um sobrevivente daqueles tempos românticos, talvez não exatamente um galã, mas vivo, bem-humorado e profundamente grato pela aventura. 

segunda-feira, 9 de março de 2026

O CANDIDATO CARA DE PAU

Carlos Gilberto Triel

Horácio Pantera, candidato a deputado federal chegou no Bairro do Mosquito Manco e deitou falação:

- Caso seja eleito com os votos de vocês prometo construir um parque aquático as margens do Rio Guandu e transformar toda essa decadente região num verdadeiro Balneário. 

Glorinha Pureza, ex bailarina de programas de auditório dos anos 70 mandou um papo reto:

- Deixa de caô, Mané. Faz um Pix aí de quinhetinhos que lhe garanto 100 votos.

Horácio Pantera quis saber detalhes:

- Ô formosa dama, e de quem seria esses meus futuros eleitores?

Glorinha, respondeu na lata:

- Qualé, malandro, pega visão! Dos meus namorados aposentados! Todos têm filhos e netos pra dá com pau. Essa velharada come aqui na minha mão e, nas outras partes do meu pão com salame.

Professor Pardal, o 71 da comunidade não perdeu a oportunidade:

- Se o doutor candidato chegar junto com milzinho para nossa Associação, garanto no minimo 200 votos.

Horácio Pantera sentiu que veio ao lugar certo, pelas suas contas a possibilidade de ser eleito era mamão com açúcar:

- Dinheiro não é problema, exijo fidelidade e transparência. Mas, afinal, essa Associação é a de Moradores? 

Professor Pardal pigarreou e mandou essa:

- Somos muito mais numerosos, sou da Associação dos Petistas Desiludidos e estamos a procura de alguém que nos faça esquecer do Lindão, o deputado que nos decepcionou.

Irmão Samuca Dorme Sujo, presbítero juramentado, sentiu que dava pra embarcar na canoa e falou baixinho ao ouvido do candidato:

- Se a excelência botar um PixZinho também aí de uns mil reais faço meus irmãos da Igreja do Jeová das Últimas Semanas votar em peso na sua pessoa

Horácio Pantera não cabia em si, já se via de terno e gravata, no plenário da Câmara à pedir um aparte ao Hugo Motta:

- Caros senhores e distinta senhora, negócio fechado, contudo, no momento atual, não disponho de fluxo de caixa, aliais, vou precisar até que vocês, meus futuros cabos eleitorais me emprestem um qualquer para o Uber, mas prometo, que um dia após a contagem dos votos  comparecer aqui e efetivar o pagamento.

Acabou de falar e a porrada comeu solta,

foi levado ao UPA devidamente  arrebentado.

Ainda na Emergência delirava para o médico e enfermeiros que seria ele o autor do próximo pedido de impeachment do presidente.


sexta-feira, 6 de março de 2026

O ANÃO GIGANTE

Carlos Gilberto Triel

O pastor Gordo Fino da Silva entrou gritando no gabinete do Missionário Abdias Malachata :

- Missionário! Tem um corno querendo me estuprar.

Missionário Abdias Malachata levou o maior  susto, e quase caiu da cadeira:

- Meu Santo Bispo Diocesano! Gordo, vai assustar sua mãe, e que negócio é esse de você invadir meu gabinete?

Pastor Gordo Fino, cuspindo e falando ao mesmo tempo:

- Foi mal, reverendíssimo, me desculpe, mas minha honra corre perigo, tem um meliante querendo me estuprar, quebra essa!

Missionário, precavido, pôs até mão pra trás, protegendo a retarguarda:

-Valha Misefio! Onde tá esse cara?

Pastor Gordo Fino, um exagerado:

- Deve tá aí na sala de espera, deve ter uns 3 metros de altura e tá armado com um fuzil AR15, 10 metralhadoras, umas 100 granadas e 1 canivete.

Missionário Abdias Malachata tentando manter a calma, falou pro obreiro:

- Paquetá, vê se o cara tá aí fora...

O obreiro Joca Paquetá, tirou logo o seu da reta:

 - É ruim, manda o porteiro Labunzamel, ele tá malhando. Academia é pra essas coisas.

Porteiro Labunzamel passou a bola rapidinho: 

- Sou muito novo pra morrer, manda Seu Astrogildo que tá com prazo de validade vencido e até falando com Jeová 

Missionário Malachata espiando pela fresta da porta do seu gabinete:

- Estou vendo os chatos de sempre, diferente só um anãozinho com um pacotinho de jujuba na mão, e coçando o saco.

Gordo, gritando num só desespero: 

- É ele! É ele! O desgraçado encolheu só pra disfarçar. Missionário, manda vir os seguranças do templo de Sansão. Não! Manda vir o batalhão inteiro, esse cara é sinistro.

Malachata perdendo a paciência:

- Deixa de frescura, Gordo. O sujeito é apenas um anãozinho, onde se viu ter medo dum homem daquele tamanho.

Gordo Fino, olhos esbugalhados:

- Porque você não viu os documentos da fera.

Malachata sem entender nada:

- Mas do quê você está falando, Gordo?

Gordo Fino contando os detalhes:

- Quando passei por ele, o marginal abriu a braguilha e me ameaçou: “olha o que você vai encarar seu Gordo do Inferno”.

Joca Paquetá, ponderou:

- E o que tem isso demais?

Gordo Fino, casa vez mais exacerado:

- O QUÊ TEM ISSO DEMAIS?!! Você não viu o tamanho da Anaconda do sujeito, tinha uns 3 metros de cumprimento por meio metro de diâmetro.

- O porteiro Labunzamel, se encolheu frustrado

- Caramba! E eu com tão pouco

Missionário Malachata, pragmático: 

- Elementar, meu caro Gordo, o que ele pode fazer com você, se você não quiser?

Gordo Fino explicando:

- Foi o que pensei no primeiro momento, depois os olhos do tarado foi ficando vermelho, e um sorrisinho safado cheio de bobices e saliências...

Missionário Abdias Malachata, objetivo:- 

E daí?

Pastor Gordo Fino, freneticamente tenso:

- Daí que o monstro partiu em minha direção e, se não fosse esse meu corpinho de velocista não conseguiria chegar aqui, um horror!

Seu Astrogildo, tranquilo que nem um monge budista:

- Besteira, Gordo, vai lá fora e faz um carinho no anão.

Gordo Fino, muito assustado:

- Daqui não saio enquanto o Exército e o FBI não matarem esse facínora degenerado.

O missionária Malachata se irritou:

- Gordo, não tenho tempo para boiolagem, se vira, saia logo daqui porque estou aguardando o Bispo Diocesano.

Gordo Fino, decidido:

- Daqui não saio. Se me expulsar retiro saio da Igreja e me transfiro pra congregação dos pastores excursionistas

Missionário Malachata, um passado de atabaques:

- Tem horas que minha vontade é largar tudo isso e voltar pro terreiro.

Gordo Fino se jogando noa pés do Misionario:

- Malachata, tenho um nome pra zelar. Sou o Gordo Fino, um estupro nessa altura da vida, meu prestígio vai pro beleléu.

Joca Paquetá que havia saído voltou com o anãozinho no colo:

- Gordo, foi tudo truque de ilusionismo, o nome dele é Mandrake Junior, é um mágico do Circo de Soleil. O cara é seu fã, e quis fazer uma brincadeirinha com você...

Gordo Fino desabafou:

- Vai brincar com a PQP!!

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Entre Microfones e Enxadas: Quando a Representação Vira Silêncio

Carlos Gilberto Triel

Há dias em que olho para trás e me vejo jovem, microfone na mão, voz impostada e carteirinha no bolso, achando que era o próprio dono da verdade. Era um orgulho meio besta, confesso, mas sincero. A imprensa, para mim, era templo e trincheira. Aprendi cedo que notícia corre, mas gente espera. E quem espera, quase sempre, espera sozinho.

Foram anos na porta de delegacias e hospitais, narrando as mesmas dores com nomes diferentes. Mudavam os endereços, trocavam-se os personagens, mas o enredo era idêntico. A chamada “comédia humana” nunca saiu de cartaz. O curioso é que a imprensa sempre esteve ali, registrando tudo. Já os sindicatos, muitas vezes, estavam ocupados demais para ouvir.

Na pandemia, a comunicação virou oráculo oficial. Enquanto famílias tremiam trancadas em casa, só se ouvia uma verdade permitida. Influenciadores lacravam, especialistas divergiam em sussurros, e a esperança vinha carimbada com selo institucional. Quem questionava era herege. E no meio da angústia coletiva, faltou o principal: alguém que traduzisse o medo do cidadão comum.

Hoje, guardadas as proporções, a reforma tributária avança como tempestade anunciada. Contadores se multiplicam nas redes, oferecendo a “vacina fiscal” contra o vírus da multa. O produtor, o comerciante, o pequeno empresário — todos com o coração na boca. Informação há de sobra; orientação segura, nem tanto. E mais uma vez, quem deveria estar ao lado da base parece falar para si mesmo.

E os sindicatos rurais? Ah, esses precisam decidir se serão retrato na parede ou voz ativa no campo. O associado não quer coquetel, quer amparo. Não quer discurso protocolar, quer posicionamento firme. Ou se mostram indispensáveis agora, ou correm o risco de virar nota de rodapé na próxima legislatura. Porque, no fim das contas, representação que não representa vira apenas lembrança.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

“Difamar Não É Militância: É Conta a Pagar”

 Carlos Gilberto Triel

Há algo de curioso — e ao mesmo tempo triste — em observar certos militantes já entrados em idade, cabelos brancos e diplomas emoldurados na parede, desfilando fúria no Facebook como adolescentes tardios. Auto proclamam-se professores, arautos da virtude e da civilização, mas trocam o giz pela ofensa rasteira. Não debatem ideias: alvejam pessoas. Não confrontam argumentos: atacam famílias. E fazem isso com uma convicção quase religiosa de que estão blindados pelo tempo — e pelo poder.

O ex-presidente Jair Bolsonaro vira alvo preferencial, mas não só ele: estendem o chicote verbal à esposa, aos filhos, aos eleitores, a qualquer um que ouse discordar. É a pedagogia da humilhação pública, ministrada em posts inflamados e comentários venenosos. Chamam isso de consciência política; parece mais ausência dela. Confundem militância com licença para difamar. E acreditam, sinceramente, que tudo ficará por isso mesmo.

Talvez ajude a explicar essa ousadia a fé inabalável de que o governo atual é eterno, imexível, imune às marés da história. Na imaginação desses cruzados digitais, Lula permanecerá para sempre no Planalto e o Supremo Tribunal Federal surgirá como anjo da guarda de cada impropério publicado. Se houver denúncia, processo ou constrangimento, acreditam que haverá sempre uma mão poderosa a afagar-lhes a cabeça. É uma confiança quase mística na eternidade do poder. E a história, como sabemos, não costuma respeitar misticismos políticos.

O que causa espécie não é apenas a agressividade, mas a ilusão de prazo de validade estendido. Julgam que poderão passar os anos restantes distribuindo calúnias como quem distribui panfletos. Esquecem que a internet arquiva, que o tempo revela, que o cenário político muda. Hoje a claque aplaude; amanhã pode silenciar. E quando a maré virar, descobrirão que prints não envelhecem e palavras não evaporam.

Há também um traço de vitimismo curioso: levantam a bandeira de um mundo ideal enquanto praticam a intolerância mais banal. Falam em democracia com os dedos crispados no teclado. Defendem a liberdade enquanto desejam o silenciamento do outro. E, ironicamente, muitos desses veteranos da retórica parecem não suportar divergência nem dentro da própria sala de estar. A revolução que pregam começa sempre no quintal alheio.

Talvez fosse prudente — por uma questão de tempo útil de vida e de biografia — colocar as barbas, os bigodes e as convicções de molho. Porque regimes passam, governos mudam, tribunais julgam, e a responsabilidade individual não prescreve com curtidas. A história brasileira é pródiga em reviravoltas. E quando o país for passado a limpo, não haverá legenda ideológica capaz de apagar ofensas, nem padrinho político que substitua a própria consciência.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

GOLPE DE MESTRE

Carlos Gilberto Triel

Garboso saiu de casa no sapatinho, olhando pro lado desconfiado, e apertando no bolso a nota de 100:

- Seguro morreu de velho, vagabundo descobre que tô forrado, me leva essa grana antes de chegar no bar.

Entrou na boteco já tirando onda:

- Aí Madruga, velho de guerra, desce um latão de Heineken na moral.

Seu Madruga foi cirúrgico:

- Heineken só a vista, se vai pendurar é Bavária. 

Garboso indignado, meteu a mão no bolso e pôs a nota de cem no balcão. 

-Tô montado, malandragem, Bavária é o cacete, pôe é minha loira gelada aí.

A notícia correu o bairro inteiro, Charutinho, o baixinho da entrega do gás exagerou pra geral:

- Aí rapaziada, o Garboso trepou em nota de cem, tá no Madruga enchendo a cara, jurou que tem mais duas daquelas em casa.

Bartolo, um petista a quem Garboso devia R$ 15 correu em  direção ao bar:

- Pelas barbas sagradas do Lula, é hoje que pego de volta minha grana!

O mesmo se deu com a Peteca Batalhão, ex- namorada a quem a Garboso prometeu pagar 20 reais que pegou emprestado na pandemia:

- Sangue do profeta Malachata tem poder, esse corno vai me pagar agora.

Seu Antero da Igreja dos Últimos Macedos, esfregou as mãos, olhinhos cobiçosos:

- Tenho que correr na frente, senão o pastor Waldomiro convence àquele otario e eu fico na saudade.

Dedo Nervoso, o chefe da milícia chamou o  Mata Rindo num canto:

- Sorrisinho, meu filho, vai lá na maciota e fala pro Garbosinho enviar trinta paus como taxa de proteção, senão boto ele na mala do carro

Nessa altura, no bar, Garboso já calibrado, deitava falação:

- Creio que devíamos fazer um abaixo assinado para que Trump impeça o desfile do Lula na Sapucaí.

Cabo Torresmo, o melhor amigo, viajou no palpite político:

- Pela experiência de ex-taifeiro, já que em 1965 estive à 500 milhas da costa dos Estados Unidos,  desconfio que o próprio Trump quem sugeriu essa furada do Lula, por razões óbvias.

Zeca Parafuso olhou entorno e viu que todos os credores do Garboso chegaram juntos:

- Sei não, Garba, parece que você vai ter que pagar os boletos vencidos...

Garboso indignado:

- Mas onde que nós estamos? Que mundo é esse que um homem não pode nem andar com uma nota de cem reais que os credores resolvem cobrar todos juntos?

Nesse instante, um Chevette cantando pneus para em frente ao Bar do Madruga e desce 2 loirinhos armados:

-Perdeu, Mané! Perdeu! Passe a grana!

Garboso pegou a nota de R$ 100, rapidinho, e meteu no bolso do Mata Rindo que tinha acabado de chegar:

- Sorrisinho, tire daí minha taxa de proteção e o resto pague todo pessoal aí que tô devendo.

Em menos de uma hora, a nota de cem cumpriu seu destino social: circulou mais que promessa de campanha — e salvou, por milagre, a pele do investidor.


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

O BAILE DE CARNAVAL DA ILHA FISCAL

Carlos Gilberto Triel

Na última semana, o cenário político ganhou um tempero extra com as declarações do ex-governador Anthony Garotinho em um podcast. Ele colocou em xeque a disposição do presidente Lula para encarar a reeleição neste ano de 2026. O comentário ecoa em um momento de pura exposição, onde cada gesto do mandatário é lido como um sinal de suas intenções futuras. A dúvida lançada por Garotinho não parece ser apenas um palpite isolado, mas o reflexo de um tabuleiro que se mexe.

​O curioso é que, no último domingo de Carnaval, vimos um contraste interessante durante o desfile de uma escola de samba de Niterói. Lula foi homenageado com toda a pompa e circunstância de um roteiro hollywoodiano, cercado por um luxo que massageia qualquer ego. No entanto, mesmo diante de tamanha exaltação à sua figura, o presidente demonstrou um comportamento contido. Havia ali um recato inesperado, como se ele estivesse antevendo as tempestades que se formam logo no horizonte.

​Motivos para essa cautela não faltam, já que o cerco parece apertar tanto no plano internacional quanto no ambiente doméstico brasileiro. Corre nos bastidores a teoria de uma "ratoeira" estratégica preparada por Donald Trump para minar as forças da esquerda na América Latina. Somado a isso, o governo precisa lidar com o desgaste das crises internas que fervem em Brasília. As CPIs do INSS e do Banco Master surgem como pedras no sapato, drenando a energia e o capital político da gestão atual.

​Nas redes sociais, o burburinho tomou uma forma ainda mais drástica e estratégica sobre o futuro do petista na presidência. Muitos internautas sugerem que Lula já teria sentido o cheiro da derrota e estaria buscando uma saída menos dolorosa para sua biografia. A tese é de que ele estaria se colocando, deliberadamente, em um processo que leve à inelegibilidade. Seria uma manobra para evitar um confronto direto nas urnas, onde o risco de um revés parece cada vez mais real.

​O grande receio, segundo essa linha de raciocínio, seria sofrer uma derrota desonrosa para o senador Flávio Bolsonaro na corrida eleitoral. Sair de cena por impedimento jurídico soaria, para seus aliados, mais como uma injustiça do que como uma rejeição popular nas urnas. Entre previsões de Garotinho e teorias digitais, o fato é que o Carnaval passou, mas a quarta-feira de cinzas política promete ser longa. Resta saber se o recato de Lula é medo, estratégia ou apenas o peso do cansaço.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Os Espíritos de Porco

Nas redes sociais — esse coliseu de dedo nervoso e memória curta — espalhou-se a notícia de que uma conhecida atriz da TV aberta confessou sentir “nojo” de bolsonaristas. A frase, que poderia render debate, virou buzina de torcida. Discordar já não basta; é preciso higienizar o outro com desinfetante moral. A plateia digital, sempre pronta para o espetáculo, entrou em êxtase performático. E a empatia, coitada, ficou na fila do cancelamento aguardando senha que nunca chega.

A réplica veio em linguagem de zoológico: cobras, marimbondos e demais espécimes convocados para substituir argumentos. É curioso como a fauna cresce quando o raciocínio mingua. Não se conversa — se sibila. Não se pondera — se ferroa. A timeline vira picadeiro e cada um exibe sua indignação como quem exibe bíceps. No fim, sobra barulho e falta pensamento, mas aplauso nunca falta quando o script é previsível.

Dá a sensação de que a venerável senhora não ocupa o horário nobre por talento ou audiência, mas por militância patrocinada, dessas que vêm com manual e hashtag. A régua do mérito agora mede alinhamento ideológico em centímetros exatos. O cachê parece incluir a cláusula “opinião obrigatória”. E assim se fabrica relevância com espuma de cappuccino: volumosa, fotogênica e inconsistente. Confunde-se eco com profundidade — e profundidade dá muito trabalho.

Enquanto isso, corre a história de que seis palestrantes de um centro espírita em Nova Iguaçu torceram o nariz para Divaldo Pereira Franco por ter ousado defender Jair Bolsonaro. Em nome da luz, apagam-se lâmpadas; em nome da caridade, distribuem-se rótulos. A divergência vira heresia, e a tolerância, item fora de estoque. O altar ganha microfone, o microfone vira palanque. E o Evangelho, se não couber na pauta, que espere a próxima encarnação.

No fim das contas, o mais espantoso não é a opinião de A ou B, mas a facilidade com que se transforma o outro em caricatura. Pessoas que juram defender o bem comum mostram alergia crônica ao contraditório. O achismo, vestido de toga, proclama sentenças com a segurança de quem nunca duvidou de si. Seguimos todos muito convictos, muito inflamados e pouquíssimo interessados em compreender. Porque, convenhamos, compreender exige humildade — e humildade não rende curtida.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O Bolso, Preferência Nacional

Carlos Gilberto Triel

A verdade nua e crua é que ideologia nenhuma enche prato de comida ou paga boleto. A convicção mais sensata hoje é que o governo corre um risco real de degringolar se a oposição souber jogar onde dói. Não importa quem seja o candidato do outro lado: se ele vier a público com o compromisso de anular multas e acabar com a perseguição fiscal sobre quem ganha entre R$ 3 mil e R$ 5 mil, o jogo vira. O eleitor quer saber de solução, não de discurso.

O alvo principal aqui é o trabalhador informal que rala para garantir o seu, mas acaba na mira do Leão por causa de movimentações bancárias de R$ 5 mil. É um absurdo que o Estado queira morder uma fatia tão grande de quem está justamente tentando se virar sem ajuda de ninguém. Quando esse trabalhador sente que o governo virou um sócio que só aparece para levar o lucro, a revolta é imediata. É uma questão de sobrevivência, e não de preferência política.

Nesse cenário, não existe "amor à camisa" ou militância que aguente. Mesmo aquele eleitor que sempre votou no governo atual ou que se identifica com a esquerda vai abrir mão do idealismo no segundo em que a conta não fechar. A oposição só precisa de uma promessa sólida de alívio no lombo desse trabalhador, dizer com todas as letras que nada do que foi, será, e daí para desidratar a base governista é pule de dez. Entre o discurso social e a proteção do próprio dinheiro, o cidadão comum não vai pensar duas vezes: vai escolher quem promete parar de sangrar o seu bolso.

Resumo: a política brasileira é movida pela máxima mais antiga que existe: o bolso é o local onde as pessoas sentem mais dor. Se o governo continuar apertando o cerco contra a classe média informal, ele mesmo estará cavando a própria cova eleitoral. O pragmatismo do eleitor é implacável e, quando a fome de arrecadação do Estado começa a sufocar o trabalhador assalariado, a lealdade política é a primeira coisa que vai para o lixo.


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

​O Preço da Ofensa: Por que seu "post" de hoje pode ser sua falência amanhã

Carlos Gilberto Triel

Essa recente condenação de uma jornalista por ofensas cruéis à filha de Bolsonaro é o legítimo efeito "pedra no lago": uma onda que vai alcançar cada internauta que hoje se acha intocável ao esculhambar opositores. Quem se presta a esse papel de atacar a honra alheia para defender político — seja por paixão ou por algum subsídio oculto — está, na verdade, fazendo um investimento às sombras que pode custar muito caro amanhã.

​O sujeito, seja ele homem ou mulher, que nunca pisou em uma delegacia, deveria pensar duas vezes antes de digitar ataques torpes nas redes sociais, especialmente contra o ex-presidente. A internet não é terra sem lei e o que você escreve hoje fica registrado como uma prova irrefutável, funcionando como um verdadeiro tiro no próprio pé quando a conta jurídica finalmente chegar para cobrar o preço da insolência.

​Não se enganem: quando essa poeira baixar, o que veremos será uma produção em série de processos por calúnia e difamação, com pedidos de ressarcimento que vão desestabilizar qualquer "influencer" de ocasião. Aqueles que hoje se sentem protegidos por bolhas ideológicas serão chamados a provar cada vírgula dita sob suspeita de estarem sendo usados para transformar o adversário em um inimigo público nacional sem bases reais.

​Em breve, assistiremos a pessoas comuns, cidadãos que sempre se orgulharam de serem "direitos", sendo convocados para depor e sentindo na pele o peso de penalidades severas. Esse é apenas o primeiro ensaio dos dias amargos que virão para quem confundiu liberdade de expressão com o direito de ofender e destruir reputações alheias sem apresentar nenhuma prova concreta.

​Portanto, o aviso está dado: o prazer momentâneo de lacrar ou ofender um opositor político nas redes não vale a ruína financeira e moral de um processo judicial longo e desgastante. Proteja seu CPF e sua tranquilidade, pois os políticos que você defende dificilmente estarão ao seu lado na hora de pagar as indenizações ou assinar o depoimento na frente do delegado.